CENTRO DE ESTUDOS BÚDICOS

Jacareí, SP



NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMÂSAMBUDDHASSA
Homenagem a Ele, ao Afortunado, ao Consumado, ao Perfeitamente Iluminado


1. Estamos no mês de maio. Neste mês é comemorado, em alguns países asiáticos e no Ocidente, um evento tríplice relacionado ao Buda: Seu nascimento, sua Iluminação e seu passamento; portanto, nada mais apropriado do que falarmos um pouco a respeito dele. Nós examinaremos alguns aspectos da vida dele anterior à Iluminação de um ângulo pouco conhecido do público, em geral; depois nós analisaremos alguns traços característicos da sua personalidade e de como isto veio a se expressar no seu ensinamento.

Os estudiosos japoneses cunharam uma palavra para o ensinamento de Buda: o Budismo Primitivo; isto porque o ensinamento de Buda foi o núcleo, a origem de todas aquelas escolas e seitas que se desenvolveram mais tarde. Mas Budismo Primitivo, naturalmente, no nosso caso atual, não significa que estejamos tratando de um ensinamento ultrapassado, caduco — nada disso! Ao contrário, o ensinamento de Buda, nas últimas duas décadas pelo menos, está em franca expansão no Ocidente. E vagarosamente, mas firmemente, tem influenciado algumas personalidades ligadas aos mais diversos ramos da atividade humana. Ao mesmo tempo, e paralelamente a isto, mais e mais pessoas estão descobrindo que este ensinamento oferece meios adequados para enfrentar cada vez melhor os desafios que a moderna vida nos lança constantemente.

Nas antigas escrituras (Cânone Páli) não encontramos nenhuma biografia de Buda; o que há são trechos autobiográficos, recordações que o próprio Buda conta em diversas ocasiões. As biografias semi-lendárias sobre Buda, tanto em páli como em sânscrito, apareceram séculos mais tarde, mas foi só recentemente que foram colocadas ao alcance do público ocidental (a mais famosa delas é a Lalita Vistara). O que no Ocidente se conhece como biografia de Buda na verdade é uma obra de ficção, um poema épico escrito por um poeta inglês, Sir Arnold, chamado A Luz Da Ásia ou A Grande Renúncia; e para escrevê-lo o poeta baseou-se numa dessas biografias antigas.

Antes de contar alguns episódios da vida de Buda, eu gostaria de ressalvar e ressaltar aqui um ponto muito importante. O Budismo Primitivo não era uma religião propriamente dita, ao contrário do que muitos pensam; antes de mais nada, era uma técnica de viver, era um caminho de vida que se percorria pela adoção de um conjunto de práticas, de ordem moral, mental e de conhecimento superior. O Buda organizou e estruturou estas práticas de tal maneira que os seus primeiros estágios, os mais simples, eram passíveis de serem modificados e adaptados às necessidades de cada tipo de pessoa. Embora este Budismo Primitivo, nos séculos subseqüentes ao de Buda, tenha se desmembrado num grande número de escolas e seitas de múltiplas facetas que, com o correr do tempo, adquiriram as características de uma verdadeira religião —, aqueles ensinamentos básicos foram preservados e permanecem até os dias de hoje. Conseqüentemente, esta flexibilidade do Budismo, aliada ao fato de que — no que diz respeito à meditação — não está compromissado com qualquer religiosidade permite às pessoas dos mais diferentes credos ou crenças a praticarem-no. Uma prova disso são os muitos padres e pastores — e, até um rabino já encontrei, num dos retiros de meditação — que fizeram estes cursos e, depois, em artigos e livros testemunharam, escrevendo o quanto útil isto lhes tem sido para as suas funções normais.

2. Pelas antigas escrituras, a imagem que nós temos de Sidarta Gotama — o nome dele antes da Iluminação — é a de um jovem à volta com problemas existenciais, aflito e angustiado por questões ligadas ao mistério e enigma da vida: a observação de que as coisas nesta vida são passageiras, transientes e impermanentes; a constatação de que a insatisfação ou sofrimento ser um fenômeno mais geral, mais abrangente, mais duradouro do que a sua contrapartida, a felicidade, de mais escassos momentos e menos duradoura. E acima de tudo, o enigma, o mistério da vida que se expressa naquele ciclo interminável que começa com nascimento, caminha rumo ao envelhecimento, termina na morte para recomeçar de novo no nascimento; depois o envelhecimento, morte e assim infinitamente.

Àquela época, na Índia, com exceção de um pequeno grupo de materialistas e céticos, a maioria da população aceitava alguma forma de renascimento ou transmigração; e o ideal que todos almejavam, que todos desejavam, era uma solução que pusesse fim a este ciclo da vida, que colocasse um termo ao nascimento e morte. A esta solução final ou salvação eles chamavam de Nirvana; mas, por este termo cada um entendia uma coisa completamente diferente de outra.

Geralmente existiam três atitudes na época com relação a esta solução: uma parte da população acreditava que pela observância de certos rituais religiosos, participando de sacrifícios religiosos eles pudessem ter um renascimento melhor; outros, ainda, esperavam que por bons atos, boas ações e o conseqüente acúmulo de merecimento devido a isso, viessem, quiçá, renascer numa esfera celestial mais feliz; e, finalmente, havia um pequeno grupo de pessoas — uma minoria, é verdade, mas ainda assim constituída de muitos milhares de pessoas — que não ficavam satisfeitas com estas soluções parciais e queriam a solução final e global — que é o Nirvana. Mas, para que a pessoa se habilitasse a percorrer este caminho rumo a uma solução final, era premissa básica deles de que a pessoa, antes de mais nada, viesse a cortar todo e qualquer vínculo afetivo e material que ele pudesse ter nesta vida. Em palavras simples, isso significava tornar-se a pessoa um eremita, um asceta ou um sramana, que significa um filósofo andarilho. Por isso nós não ficamos surpresos que o Sidarta, que desejava uma solução final, tivesse escolhido este último caminho. Quem já conhece a vida lendária de Buda sabe que nela este ato é apresentado como de grande sacrifício, de grande heroísmo e de abnegação. Mas, o fato histórico, pelas antigas escrituras, é este que acabei de contar.

3. Leiamos, agora, algumas dessas recordações do próprio Buda relativas a esse período.

Eu era delicado, extremamente delicado, excessivamente delicado. Na casa de meu pai tanques de lótus foram construídos unicamente para o meu benefício, florescendo num deles lótus azuis, num outro vermelhos e, num terceiro, brancos. Eu não usava sândalo que não fosse de Benares; meu turbante, túnica, as roupas de baixo e a capa eram todos feitos de tecido de Benares. Dia e noite um pára-sol branco era seguro por cima da minha cabeça a fim de que eu não viesse a ser incomodado pelo frio ou pelo calor, pela poeira ou areia ou orvalho.

Eu tinha três palácios: um para a estação do frio, um para a do calor e outro para a estação das chuvas. Durante os quatro meses chuvosos, no palácio para a estação chuvosa, eu era entretido exclusivamente por menestréis femininos, e eu nunca saía deste palácio. Embora refeições de arroz quebrado e sopa de lentilha fossem dadas aos criados e empregados nas outras residências, na casa do meu pai estes eram servidos com arroz branco e carne.

Então, discípulos, ainda que dotado de tal boa fortuna e tal excessiva delicadeza, não obstante eu pensei: “Quando um homem ordinário e não-instruído, que está sujeito ao envelhecimento, que não está a salvo da velhice, vê uma pessoa envelhecida, ele fica perturbado, envergonhado e desgostoso; porque esquece que ele próprio não é uma exceção. Eu também estou sujeito ao envelhecimento, não estou a salvo da velhice, e assim não é apropriado que eu venha a ficar perturbado, envergonhado e desgostoso ao avistar um outro em idade senil”. E quando assim refleti, todo o orgulho que tinha pela juventude inteiramente me abandonou.

[A mesma reflexão repete-se com relação à doença, terminando em:]

(...) e o orgulho que tinha pela saúde inteiramente me abandonou.

[E, finalmente, com relação à morte:]

(...) e o orgulho que tinha pela vida inteiramente me abandonou.
(Anguttara Nikâya I.145 [iii.38])

Antes da minha Iluminação, discípulos, enquanto eu ainda era um Bodisatva (um ser candidato à Iluminação), não-desperto, estando eu próprio sujeito ao nascimento, envelhecimento, doença, morte, tristeza e impurezas, andava eu em busca do que estava igualmente sujeito a estas coisas. Então eu pensei: “Por que, estando eu próprio sujeito ao nascimento, envelhecimento, doença, morte, tristeza e impurezas, estou eu a andar em busca do que também está sujeito a estas coisas? Suponha que eu, estando sujeito a estas coisas e nelas vendo um perigo, for em busca do não-nascido, do que é isento de envelhecimento e doença, da não-morte, do que é isento de tristeza e impurezas, e da suprema cessação de todos os liames — isto é, do que é o Nirvana?”

(Majjhima Nikâya, Sutta 26)

Antes da minha Iluminação, discípulos, enquanto eu ainda era um Bodisatva, não-desperto, eu pensei: “A vida caseira é apertada e poeirenta; a vida de sem-casa é ampla e aberta. Não é fácil, vivendo numa casa, levar uma divina vida tão perfeita e pura quanto uma concha polida. Suponha que eu cortasse cabelos e barba, vestisse o manto amarelo e fosse embora da vida de casa para a de sem-casa?”

(Majjhima Nikâya, Sutta 36 - MN, Sutta 100)

Então, eu, discípulos, após algum tempo, sendo ainda jovem, de cabelos pretos qual carvão, possuído de juventude radiante e nos primórdios da vida, cortei meus cabelos e barba — embora meus pais se opusessem e estivessem a chorar e a lamentar —, e vestindo o manto amarelo, fui embora da vida de casa para a de sem-casa. Assim, abracei a vida de asceta, buscando o que é salutar, procurando o incomparável, o sublime estado de paz.

(Majjhima Nikâya, Sutta 26Sutta 36Sutta 85Sutta 100)

Nós notamos aqui duas coisas: Primeiro, esta descrição que acabamos de ouvir não tem nada semelhante à vida semi-lendária de Buda; em segundo lugar, não há aqui qualquer menção de uma esposa ou filho. Pelo que sabemos, o único trecho onde isto é mencionado, é na primeira divisão do Cânone Páli, o Livro da Disciplina (Vinaya Pitaka, Mvu i.54). De acordo com este, Buda, pouco tempo depois da sua iluminação, foi visitar sua cidade natal Kapilavastu. Uma manhã, ele aproximou-se da residência de seu pai e foi convidado a entrar e sentar-se. Enquanto assim sentado, a senhora, mãe de Ráhula (não se menciona o nome dela!), falou assim ao menino: "Este, Ráhula, é teu pai; vá e peça tua herança".

4. Assim, nós vemos o Sidarta começar a sua vida de sramana (filósofo-andarilho), a sua carreira de aprendiz que se prolongará por seis anos; um período bastante curto se levamos em consideração o que ele conseguiu neste tempo. No início ele estudou com um mestre, Âlâra Kâlâma, e, com as instruções que dele recebeu, conseguiu atingir o mesmo estágio espiritual do próprio mestre; mas, não ficou contente, estava insatisfeito, porque, a seu ver, ele ainda não tinha alcançado a plena Iluminação. Então, largou este mestre, continuou a vaguear por aí e foi estudar com Uddaka Râmaputta, um mestre bastante conhecido e que estava num estágio espiritual acima do mestre anterior (estágio este conhecido como nem-percepção-nem-não-percepção). Com este se repete a mesma história: com afinco e dedicação se entrega à prática, e em pouco tempo atinge o mesmo estágio espiritual deste mestre. Por sinal, um estágio elevadíssimo, e, a julgar pelo fato de que o Buda nunca mais depois disto pôde encontrar alguém em estágio superior a este, é uma prova de que este seria o último estágio espiritual que se conhecia à época na antiga Índia.

Depois que ele largou também este segundo mestre, ele continuou sua vida de filósofo-andarilho por mais algum tempo; mas, muito pouco ele conta acerca deste período intermediário, aparentemente porque não deva ter achado algo importante. Finalmente, um dia, quando ele passava em revista tudo quanto já tinha absorvido, aprendido, praticado, ele notou, então, que havia ainda uma doutrina, uma só que a não tinha experimentado: era a doutrina da autoflagelação ou da automortificação. Na vida lendária se diz que Buda a teria desprezado, mas não é o que consta nas escrituras.

Como sabemos, em outras partes do mundo também existiu a autoflagelação e até hoje existe. Tem-se os seus resquícios no Cristianismo — por exemplo, na semana de Páscoa, quando algumas pessoas se submetem a vários tipos de autoflagelação. Nenhuma destas, porém, poderia comparar-se, em rigor, com aquela que existia na antiga Índia. Esta era constituída de uma vasta e riquíssima gama de modalidades e variedades. Cada uma, por sua vez, se compunha de uma grande série de práticas diferentes. Os métodos só eram limitados pela natural limitação da imaginação humana.

Então, Sidarta escolheu um grupo de modalidades de autoflagelação para experimentar. Aquelas que pensava que talvez o levassem à tal almejada Iluminação. E ele tomou a decisão de que haveria de experimentar essas autoflagelações com tal rigor que nunca nenhum ser humano antes dele as havia experimentado, nem conseguiria alguém depois dele a experimentá-las. Eu vou mencionar aqui apenas duas dessas modalidades, não só porque mostra algumas características e alguns traços da sua personalidade — como fibra, tenacidade, coragem, sabedoria — mas, também, porque tiveram alguns desdobramentos na sua vida posterior.

A primeira dessas experiências refere-se a uma emoção das mais básicas no ser humano e também nos animais: o medo. Enquanto estudava com os dois mestres, o Sidarta havia feito uma descoberta muito importante: certas emoções básicas como o medo e alguns estados mentais meio corruptos, destorcidos, não existem naquelas pessoas que chamamos de santos ou que estejam em estágio espiritual bastante elevado — ou, pelo menos, aparentam não existir. Ao fazer uma auto-análise psicológica, Sidarta descobriu que estes estados, na verdade, estavam jazendo latentes no fundo do coração, embora completamente dominados e subjugados, e, para todos os efeitos, como que não existindo. Mas, de outro lado, ele, com base na intuição, na sabedoria, estava convencido de que sem erradicá-los completamente, extirpá-los, não se poderia chegar à Perfeita Iluminação. Por isso, decidiu levar a cabo algumas experimentações psicológicas, escolhendo, como cobaia, exatamente essa emoção, o medo, porque é uma das mais difíceis de erradicar. Havia um porém: conforme o Buda conta nas suas memórias, situações comuns, que normalmente levariam as pessoas ordinárias ao pânico ou ao terror, nele, em Sidarta, devido ao estágio espiritual no qual estava na ocasião, não causariam o menor arranhão na sua mente. Por isso ele foi obrigado a maquinar, tramar e inventar situações artificiais para que pudesse evocar essa emoção e trazê-la à tona.

Vou mencionar uma de suas experiências com o medo. Naquela época existiam terrenos baldios, cemitérios ao céu aberto, onde pessoas de certas crenças religiosas depositavam seus mortos para que fossem presas das aves de rapina e animais selvagens. Durante longo tempo, noite após noite, Sidarta passava, num desses cemitérios, deitado entre cadáveres, esqueletos, ora encostado nuns, ora abraçado a outros. A descrição que ele faz dos estados emocionais e mentais aos quais é submetido, é impressionante, como também serve de modelo e lição psicológicos que, dificilmente, se poderia repetir hoje em laboratórios de uma maneira artificial. Quando o Buda estava, em certa ocasião, contando este episódio aos seus discípulos, um deles, que postava-se atrás do Mestre e lhe abanava — porque o dia era de intenso calor — exclamou: “Espantoso, Senhor; maravilhoso, Senhor! Enquanto eu escutava este seu discurso, meus cabelos ficaram de pé. Que nome nós daremos a este seu discurso, Senhor?” E o Buda responde: “Se quiseres, podes chamá-lo de ‘O Discurso dos Cabelos que Ficaram de Pé ’. ”

A segunda modalidade que ele experimentou e que vou mencionar aqui, refere-se à alimentação. Também neste caso, vou contar só uma delas, a mais moderada de todas, porque as outras poucas pessoas teriam estômago e nervos para escutá-la. Inicialmente, ele tentou aumentar o espaço de tempo entre duas refeições: de uma refeição por dia, passou para uma refeição a cada dois dias; depois uma a cada três dias, até tomar uma só refeição a cada quinze dias. Após, foi diminuindo a quantidade do alimento ingerido, até chegar a se alimentar com um grão de arroz por dia. Quando ele contava isto, ele comentou com bom humor: “Não pensem, não cometam o erro de pensar que o grão de arroz naquela época era grande, gigante; nada disso, não! Ele era igualzinho ao de hoje.” O resultado dessas experiências com a alimentação, Buda as descreve de uma maneira muito expressiva, que eu vou ler para vocês.

(...) Meu corpo tornou-se extremamente emaciado; todos os meus membros tornaram-se quais juntas de bambu — devido à pouca comida. A marca que deixava no assento era do tamanho do casco do camelo — devido à pouca comida. As projeções da minha espinha dorsal tornaram-se qual enfiada de contas — devido à pouca comida. Tal como o vigamento de um velho abrigo que se projeta para a frente, assim mesmo minhas costelas estavam salientes; e como a água de baixo nível que cintila no fundo de um poço profundo, assim o brilho dos meus olhos surgiam das profundezas das órbitas afundadas — devido à pouca comida. Quando eu pensava estar tocando a pele do meu abdômen, era a minha coluna que eu segurava, e quando pensava estar tocando na minha coluna, era a pele do meu abdômen que eu tocava — de tal maneira a pele do abdômen estava grudada à coluna, devido à pouca comida. Quando seres humanos me viram, eles disseram: “O sramana Gotama é preto.” Outros disseram: “O sramana Gotama não é preto, ele é marrom.” Alguns outros disseram ainda: “O sramana Gotama não é preto nem marrom; ele é de cor amarela.” A tal ponto minha tez pura e clara havia se deteriorado — devido à tão pouca comida.
(Majjhima Nikâya, Sutta 36MN, Sutta 85MN, Sutta 100)








Xáquia-Múni Praticando Austeridades

(Sikrí, Paquistão; 2o - 3o Século; Museu de Lahore)


5. O resultado foi triste, porque provou a ele que a autoflagelação não levava à Iluminação. Além de ter o corpo debilitado ao extremo, o que era pior para ele — sua mente estava embotada. Ele se achava numa encruzilhada, num ponto crítico da sua vida; não havia sequer alguém de nível espiritual superior que pudesse orientá-lo; não se abria nenhum caminho à sua frente que pudesse levá-lo aonde queria chegar. Então, foi neste momento crítico que uma luz brilhou na escuridão; ele lembrou-se de um episódio passado: quando era um garoto ou, talvez, um adolescente — não está muito claro — ele havia ido ao campo com seu pai e, enquanto este trabalhava o solo com o arado, ele havia se sentado ao pé de uma árvore, na sombra, e, depois, espontaneamente, havia entrado num profundo estado de meditação de uma maneira completamente diferente, num método não conhecido até então. Nisto, Sidarta refletiu: será que se eu retomar esse método e o desenvolver até as últimas conseqüências, chegaria eu à Iluminação? E enquanto ele refletia, a intuição lhe veio de que o deveria experimentar.

Assim, ele tratou, antes de mais nada, de fortalecer o corpo para, com isso, dar condições à sua mente fazer a última tentativa. Isto é um ponto importante, porque nos mostra o inter-relacionamento entre corpo e mente. Depois, tratou de achar um lugar adequado para esta tentativa; e achou-o perto de um vilarejo de nome Uruvelâ (Bodh Gayâ), à margem de um rio, Nerañjarâ, de suave correnteza e águas cristalinas, margeado de bonitas e frondosas árvores de largas copas, que se espraiavam para todos os lados formando uma sombra muito agradável, amenizando a alta temperatura que normalmente nesta época do ano chega a 45 graus na sombra. Ele achou este lugar muito delicioso e gostoso; escolheu uma árvore — conhecida como árvore-Bo (árvore da Iluminação, ficus religiosa) —, sentando-se ao pé dela, com a determinação de que ou ele se levantaria daqui como um iluminado, ou ficaria sentado lá até que pele e carne e osso e sangue viessem a secar completamente e se tornassem pó. Foi neste local, portanto, e sentado debaixo desta árvore durante sete dias e sete noites com as pernas cruzadas, que o Sidarta Gotama tornou-se um Buda.

O resultado final desta Iluminação o Buda descreve de duas maneiras. Na primeira versão, suas últimas frases são:

(...) Assim eu, discípulos, estando sujeito ao nascimento, envelhecimento, doença, morte, tristeza e impurezas; tendo conhecido o perigo a eles inerente, (...) ganhei o não-nascido, ganhei o que está isento de envelhecimento e doença, ganhei a não-morte, ganhei o que está isento de tristeza e impurezas, ganhei a suprema cessação dos liames — isto é, o Nirvana. O conhecimento e visão surgiram em mim de que inabalável é para mim a liberdade, que este é o último nascimento, que não há mais um renovado vir-a-ser.

(Majjhima Nikâya, Sutta 26)


A outra versão é a mais popular, a mais repetida nas escrituras, porque todos aqueles discípulos que se iluminaram também, usaram das mesmas palavras. As suas últimas frases dizem:

(...) Com a mente assim composta, de todo purificada, inteiramente clarificada, sem mácula nem eiva, crescida maleável e destra, firme e invulnerável, eu dirigi minha mente ao conhecimento da destruição dos cancros (morais). Eu entendi conforme a realidade, de que: isto é sofrimento, isto é a origem do sofrimento, isto é a cessação do sofrimento, isto é o caminho que leva à cessação do sofrimento. Eu entendi conforme a realidade, de que: estes são os cancros (morais), isto é a origem dos cancros, isto é a cessação dos cancros, isto é o caminho que leva à cessação dos cancros.

Quando eu assim soube, assim vi, minha mente foi emancipada do cancro dos prazeres-sensuais, foi emancipada do cancro do vir-a-ser e foi emancipada do cancro da ignorância. Em liberdade, o conhecimento veio a ser de que eu estava emancipado, e eu compreendi: destruído está o nascimento, levado a termo está a divina vida, feito está o que havia para ser feito, não há mais disto para vir a acontecer.

(Majjhima Nikâya, Sutta 36MN, Sutta 22)




Templo de Mahâbodhi (Bodh Gayâ, Bihar, Índia)


Iluminado, Buda então levantou-se, encaminhou-se ao longo do rio e num outro lugar, escolhendo uma árvore, ficou lá sentado por mais sete dias, gozando as delícias da completa libertação. Buda haveria ainda de repetir este deslocamento de sete dias cada, mais duas vezes. Finalmente, após ter aceito como seus discípulos leigos dois comerciantes que o alimentaram2, ele encaminhou-se a um dos lugares anteriores, onde ficou sentado, de pernas cruzadas, em profunda contemplação. Após algum tempo, ele emergiu daquele profundo estado de meditação em que esteve mergulhado. E, quando voltou a si, uma dúvida perpassou-lhe na mente: ele acabara de descobrir algo muito profundo, complexo, difícil de compreender; ele contaria isto a alguém? Haveria alguém que pudesse entendê-lo?

E esta verdade (Darma) por mim alcançada é profunda, difícil de ver, difícil de entender, é tranqüila, enlevada, está além do escopo do raciocínio, é sutil e experimentável pelo sábio. Esta geração, porém, é dada ao prazer daquilo pelo qual tem apego, deleitada naquilo pelo qual tem apego, encantada por aquilo pelo qual tem apego. No entanto, para uma geração [assim apegada] esta matéria é difícil de ver, a saber, esta condição causal, a originação dependente. Também será difícil de ver a tranqüilização de toda atividade e disposição conativas, o abandono de todo substrato (de renascimento), a extinção da sede, a ausência de paixão, a cessação, o Nirvana3. E assim, se eu fosse ensinar o Darma e os outros não fossem (capazes de) me entender, isto seria para mim um aborrecimento, isto seria para mim um desgosto.
(Vin I.5.2 [i.3-4]; MN, sutta 26)

À medida que ele assim ponderava, sua mente inclinou-se para indiferença, para pouco esforço e não no sentido de ensinar o Darma. Narra o relato canônico que o deus Brahmâ Sahampati teria ficado preocupado ao tomar conhecimento com a sua mente do arrazoado na mente do Afortunado, temendo que o mundo ficasse perdido e destruído se a mente do Afortunado continuasse a se inclinar no sentido de não ensinar o Darma. Então ele teria descido de sua esfera vindo à presença do Afortunado e, após muita persistência, o teria convencido a mudar de idéia. Nos pensamentos que Buda teve na seqüência, ele faz uso de uma metáfora e uma analogia que são verdadeiras jóias de sabedoria:

(...) E então, discípulos, eu, por compaixão dos seres, escrutei o mundo com o olho de um Iluminado. Escrutando o mundo com o olho de Iluminado, eu vi seres com pouca poeira nos olhos e com muita poeira nos olhos, de faculdades aguçadas e de faculdades embotadas, de boas qualidades e de más qualidades, fácil de serem instruídos e difícil de serem instruídos, e uns poucos que vivem a ver motivo para receio na falta e no outro mundo. Justamente como num conjunto de lótus-azuis ou lótus-vermelhos ou lótus-brancos, no qual alguns lotos que nascem na água e crescem na água, não emergem da água e nela medram imergidos; alguns lotos que nascem na água e crescem na água, repousam na superfície da água; e alguns lotos que nascem na água e crescem na água, ficam elevados acima da água e imaculados pela água.

(...) Existem, portanto, seres com pouca poeira nos olhos que, por não ouvir o Darma (Ensinamento), decaem; estes tornar-se-ão conhecedores da verdade.

(Majjhima Nikâya, Sutta 26)

Aqui está bem claro no que tange, pelo menos, a chamada salvação final ou Nirvana, que este não estaria ao alcance de qualquer um. O Buda deixou isto claro em várias ocasiões conforme veremos mais adiante. Num outro trecho ele diz o seguinte:

Que venha um homem inteligente, não fraudador nem ilusor, mas reto por índole. Eu instruo, eu ensino o Darma (a lei natural) de maneira que, praticando consoante o instruído, antes de decorrido longo tempo, ele saberá por si mesmo, verá por si mesmo: “De fato, assim vem a ocorrer perfeitamente a libertação do laço, isto é, do laço da ignorância.4
(Majjhima Nikâya, Sutta 80 [ii.44])

6. Buda iluminou-se numa idade bastante jovem — tinha trinta e cinco anos. Na época, na Índia, isto era adolescência na via espiritual, de maneira que custou, a muita gente, no início, acreditar neste fato. Quando, pouco depois da sua Iluminação, o Buda se encontrou com o rei de Magadha e este lhe expressou sua admiração pela juventude de Buda, o Mestre lhe disse: “Majestade, nesta vida quatro coisas jovens não devem ser negligenciadas nem menosprezadas. Quais quatro? Um incêndio jovem, uma jovem serpente, um príncipe jovem e um sramana jovem.”

Todo tipo de pessoa vinha a conversar com Buda, de todas as camadas sociais; e ele atendia, a todos, com paciência. Algumas dessas pessoas queriam saber: era ele um onisciente? era ele um salvador? Buda deu duas opiniões a respeito — uma, na qualidade de Buda; outra, na qualidade da função que ele tem neste mundo. Quanto à primeira, Buda disse que nesta vida, na Natureza, existem princípios que pertencem à lei natural; o Buda descobre estes princípios e os explana para outros. O processo de Iluminação abrange e é paralelo ao processo de descobrimento. Com relação a três destes princípios, que se chamam “Os três fatos básicos da existência”, que rege toda a existência, Buda assim se expressou:

Quer apareçam Tathâgatas5 (no mundo) ou quer não apareçam, isto permanece ainda um fato, uma condição firme e definitiva da Natureza — que todas as formações (condicionadas) são impermanentes… que todas as formações (condicionadas) estão sujeitas ao sofrimento e insatisfatoriedade… que todas as coisas carecem de substância própria6. Um Tathâgata é iluminado plenamente quanto a isto e o apreende completamente; tendo se iluminado plenamente quanto a, e apreendido completamente isto, ele declara, ensina, dá a conhecer, põe em evidência, descobre, disseca e aclara que todas as formações (condicionadas) são impermanentes… que todas as formações (condicionadas) estão sujeitas ao sofrimento e insatisfatoriedade… que todas as coisas carecem de substância própria.
(Anguttara Nikâya I.286 [III Sutta 134])


Isto significa que a vida seja um processo dinâmico em constante mudança, e não há nele — pelo menos não se enxerga, não se vê e não se pode provar que há nele algo fixo e imutável, e isto está em concordância com as Ciências modernas, principalmente a Física Molecular.7

Com relação ao segundo ponto, que responde diretamente à indagação de ele ser um salvador ou não, vou narrar resumidamente um trecho de um diálogo que ele travou, um dia, com um cidadão.

Certa feita, um brâmane foi visitá-lo; era ele da profissão de contador. Perguntou ao Buda se, a exemplo do que acontece com a maioria das profissões, em que o aprendiz começa num nível mínimo e vai galgando os degraus da especialidade aos pouquinhos, aprendendo a profissão até chegar a culminância da mesma — se ele poderia apontar para algo parecido também no seu ensinamento. O Buda respondeu positivamente e passou a lhe contar e a lhe descrever minuciosamente o seu treinamento gradual. Quando terminou de fazer sua exposição, o brâmane, contente, avançou a segunda pergunta: Seriam todos os discípulos de Buda iluminados? Buda respondeu que não — uns o eram, outros o não eram. Então o brâmane comentou espantado: “Mas, como se explica isto: temos aqui o Mestre Gotama que é uma pessoa completamente iluminada; temos seu ensinamento que é perfeito; no entanto, alguns discípulos seus são iluminados, enquanto outros o não são?” Buda então respondeu: “Vou te fazer uma pergunta e me responda conforme te convier: Tu nasceste nesta cidade de Rajâgaha?”, “Sim, Senhor.” “Tu te considerarias um exímio conhecedor da cidade e dos caminhos que a ela conduzem?” “Eu diria que sim, Senhor.” “Então suponhamos que tu tenhas viajado a um distrito qualquer a negócios; e que um homem que quisesse chegar a esta cidade te solicitasse ajuda. Então, tu lhe dás uma descrição detalhada, precisa, pormenorizada do caminho que deveria percorrer, os atalhos a tomar, as pontes a transpor, os rios a cruzar até que chegasse a uma alameda orlada de árvores altaneiras, e em seguida entrasse numa rua ladeada de casas bonitas, pintadas de branco e com jardins floridos — sinal de que ele estava adentrando Rajâgaha. Agora, este homem se põe a caminho e num ponto qualquer da estrada toma o atalho errado, se perde e vai parar num outro lugar.

Imagina, agora, uma outra pessoa, nas mesmas condições, munido da mesma instrução, chega direitinho na cidade. Como se explica isto: temos aqui um exímio conhecedor das vias que levam à cidade, e uma descrição tão perfeita e detalhada, e, no entanto, um acha seu caminho e o outro não acha?” O brâmane levanta os ombros, “O que eu posso fazer, Senhor; eu só posso dar explicação, depende da própria pessoa achar seu caminho à cidade.” “Da mesma maneira, ó brâmane,” responde o Buda “eu sou apenas um mostrador de caminho; depende de cada um saber alcançar o objetivo.”

7.a Buda amiúde censurava certos tipos de instrutores cujas palavras eram ocas embora, às vezes, tivessem um discurso brilhante e atraente; ou que pareciam falar de coisas substanciais, mas, falavam apenas com base em conhecimento intelectual e não porque tinham praticado a palavra falada. Outras vezes ele censurava pessoas — não necessariamente instrutores — que se prontificavam a ajudar outros, a ensiná-los sem que antes cuidassem de sua própria instrução, atingindo certos níveis espirituais, que lhes permitisse ter uma base sólida para instruir os outros. A este respeito vou ler três versículos do Dhammapada.

Qual uma bela flor brilhante mas sem fragrância,
Assim infrutífera é a bem-falada palavra daquele que a não pratica.
Qual uma bela flor brilhante e perfumada,
Assim frutífera é a bem-falada palavra daquele que a pratica.
(Dhp 51/2)

Que alguém estabeleça primeiramente a si próprio no que é correto,
E então os outros instrua. (Assim) fazendo, o sábio não se corromperá.
(Dhp 158)

7.b Outra coisa que o Buda mencionou é com relação à ajuda mútua; ele disse que nunca uma pessoa poderia ajudar uma outra a partir de uma mesma posição, ou uma posição inferior. Para poder ajudar, ele tem que estar numa posição espiritual superior. E assim ele se expressou:

Que alguém atolado no lodaçal venha, ele próprio, puxar para fora um outro atolado no lodaçal — esta situação, por certo, não é encontrada. Mas, que alguém não atolado no lodaçal venha, ele próprio, puxar para fora um outro atolado no lodaçal — esta situação, por certo, é encontrada.

Que alguém não domado, não disciplinado e não liberto completamente venha, ele próprio, domar, disciplinar e tornar completamente liberto um outro —, esta situação, por certo, não é encontrada. Mas, que alguém domado, disciplinado e completamente liberto venha, ele próprio, domar, disciplinar e tornar completamente liberto um outro —, esta situação, por certo, é encontrada.

(Majjhima Nikâya, Sutta 8 )

7.c Outro assunto de que o Buda falou muito e se constitui num ponto importante no budismo, é a amizade. Tanto o instrutor, que é considerado antes de mais nada um amigo, quanto aquele companheiro de vida que está sempre pronto a auxiliar seu amigo, a ajudá-lo no que for necessário — todas estas pessoas eram chamadas e são ainda chamadas de “amável amigo” ou “amigo amado”, em páli kalyâni-mitta. Quando, certa vez, o seu famoso discípulo, Ânanda, disse ao Buda “Senhor, a amizade é uma parte importante do caminho”, Buda protestou “Não diga isto, Ânanda, não diga isto, Ânanda! A amizade não é uma parte importante do caminho — é o caminho todo.” Por isso, no decorrer de sua longa vida de iluminado — quarenta e cinco anos —, o Buda freqüentemente se referiu a este tema de amizade, e nunca cansou em aconselhar as pessoas para que tomassem muito cuidado ao fazer amizades na vida. Vou ler para vocês mais alguns versículos do Dhammapada relacionados à amizade.

Se, jornadeando, não encontrar (ninguém) que lhe seja igual ou melhor,
Que firmemente siga ele solitário: não há amizade com tolos.
(Dhp 61)

Não te associes às más companhias, não te associes aos vis homens;
Associa-te aos virtuosos amigos, associa-te aos melhores entre os homens.
(Dhp 78)

Se vós achardes um companheiro prudente
A se andar com ele, — de boa conduta e inteligente —,
Sobrepujando todos os perigos
Andeis com ele alegres e refletivos.
(Dhp 328)

Agradáveis são os companheiros quando surge a ocasião;
Sendo mútua, agradável é a satisfação;
Bendito é no fim da vida o merecimento,
E bendito o abandono de todo o sofrimento.
(Dhp 331)

8.a Buda, como vimos, foi um homem que chegou à Iluminação por seus próprios méritos. Ele teve que percorrer o caminho praticamente sozinho, e, para tanto, não contou com nenhuma ajuda externa de qualquer espécie, seja humana seja divina; e tão pouco as suas experiências interiores ele atribuiu, em momento nenhum, a uma possível inspiração divina. Como resultado disso, é natural que o ensinamento dele esteja imbuído deste espírito. No budismo, o empreendimento pessoal é altamente valorizado. Talvez esta seja uma das razões porque, em certos países, ele tem sido bem recebido como é o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde, como sabemos, o mito da pessoa que se faz por si mesma, que tem sucesso na vida, é ainda forte.

Buda foi altamente prático, como se vê nos objetivos que escolhera quando era um aprendiz — na maneira como os executou e os praticou — mostrando um senso agudo de pragmatismo e prática. Certa vez, ele disse que o critério para o julgamento da utilidade de um ensinamento, estava relacionado à praticabilidade deste, à sua eficácia e à sua capacidade em dar frutos o quanto antes. A pessoa, independentemente do estágio no qual esteja, — mental, psicológico, espiritual —, se estiver praticando a contento, levando a coisa a sério, seguindo as instruções, haverá de obter algum fruto; do contrário, algo estará errado com o ensinamento.

Certa vez, ele definiu seu próprio ensinamento da seguinte maneira:

Este ensinamento é visível nesta vida, intemporal, convida a vir e a ver (isto é, ele é verificável); é conducente ao objetivo e experimentável, individualmente, pelo inteligente.

8.b Outro traço que passou para o seu ensinamento, baseado na sua experiência de aprendiz, diz respeito ao conhecimento. O critério para a validade de um conhecimento é, exclusivamente, a experiência interior. Este critério, como sabemos, é também o critério que as Ciências modernas adotam; porém, há uma diferença: na Ciência, a experiência provém das percepções sensoriais, e, no budismo, existe mais um componente, que são as percepções extra- ou supra-sensoriais. Uma parte dessas percepções são, atualmente, objeto de investigação em Parapsicologia; mas, outras são exclusivamente budistas e não são passíveis de estudo. Somente as pessoas que estão perto do Nirvana podem experimentá-las e saber do que se trata.

Existe um trecho de um discurso de Buda que ficou famoso. Ele, certa vez, falando com os cidadãos de uma cidadezinha, chamados Kâlâmas, disse o seguinte: Vós não deveis aceitar nada por ouvir falar, nem porque é tradicional, tampouco porque está nas escrituras; nem porque veio de alguma autoridade, ou porque alguma pessoa honrada o falou, e tampouco porque o Mestre o disse. Vós deveis aceitar tão somente aquilo que vós mesmos experimentam, descobrem, conhecem diretamente, de que a coisa é boa, é salutar, é conducente ao bem-estar de vós e de outros, e leva à pacificação do coração.

Muitos estudiosos admiram estas palavras de Buda, porque, realmente, é um caso único em toda a história, de um mestre dizer que não se deva aceitar suas palavras sem mais nem menos, sem que primeiro sejam verificadas. Mas, há um pouco de precipitação por parte deles — é e não é assim, porque logo surge a pergunta: enquanto eu ainda não tenha verificado, ou, se a verificação demorar muito tempo — pode levar anos ou mais uma vida —, o que a pessoa deveria fazer, entrementes? Buda tem resposta para isso: neste caso, a pessoa tem que dar um voto de confiança. Alguns traduzem isto por fé —o certo talvez fosse "fé-confiante"; mas, baseado em que se dá este voto de confiança? Baseado em vários fatos: baseado, em primeiro lugar, na própria personalidade do Mestre, que deve ser uma pessoa, antes de mais nada, altamente coerente — que significa: o que ele pensa isto ele fala, o que ele fala isto ele executa. Deve haver provas de que seu ensinamento esteja dando frutos, esteja levando a algum lugar e, a prova melhor, é verificar se existem pessoas que conseguiram alguma coisa.

8.c Vou, agora, falar de mais outro traço característico de Buda; os traços que são peculiares ao Buda são muitos, mas, no contexto de um artigo, obviamente, não se pode mencionar todos. Mas vou mencionar um que, pelo menos, para Buda e os budistas tem uma relevância, uma importância muito grande, porque, de acordo com Buda, o mal da humanidade esta ligado a este fato. Vou chamar o assunto, o tema de “especulações”.

Buda tinha uma atitude de completo mutismo diante de certos assuntos, em relação a certos temas, com o que lhe valeu o apelido de “Buda, o silencioso”. A especulação é, digamos assim, uma fraqueza generalizada da humanidade; está no nosso sangue, faz parte da maioria das pessoas, senão de todas, e, se observamos nossas conversas diárias em círculos de amigos e outros, nós verificaremos com facilidade que boa parte dessas conversas são meras especulações. Nós opinamos sobre todos os assuntos, discutimos acerca de tudo, com a segurança daquele que sabe do que fala, quando, na verdade, não temos nenhuma base ou dados suficientes para formar uma opinião a respeito.

Mas, isto é, por assim dizer, conversas menores — muitas delas, talvez, inofensivas; mas nem sempre, porque sabemos que muitas delas levam a querelas entre as pessoas e até a assassinatos. No entanto, o que mais preocupou o Buda na ocasião, eram as conversas de alto nível — as filosóficas e religiosas. Naquela época, como acontece também agora, discutia-se tudo: discutia-se, por exemplo, se o universo era finito ou infinito; discutia-se sobre Deus e deuses; sobre se o destino do homem era previamente traçado; sobre a alma e o corpo; sobre o que aconteceria após a morte; e mais sobre uma infinidade de assuntos afins. O Mestre dizia ter o homem um problema diante de si — problema muito sério, existencial, que envolve sua sobrevivência. Ele deveria dar toda sua atenção a este assunto, deveria se concentrar nisto, procurar caminhos e soluções despendendo energia nesta direção. Ao invés disto, a pessoa trata de outros assuntos que não tem nada a ver com seu problema básico, dispersa suas atenções, despende energia à toa — e poderíamos acrescentar e dizer: gasta recursos, também, em programas e obras duvidosas, enquanto dezenas de nações estão sem recursos para poder resolver seus problemas econômicos e sociais, e boa parte da humanidade está passando fome. É como aquela pessoa enferma que, ao invés de procurar um médico para se curar, decide se distrair o máximo possível com o fito de se esquecer da enfermidade.

Sobre este assunto — fazer o que é prescindível e imprescindível, o que é útil e inútil — alguns instrutores de meditação budista gostam de contar uma anedota originária da Índia:

Um professor e erudito precisava viajar a uma cidade costeira, e, para tanto, alugou uma embarcação dirigida por um velho marinheiro. Uma noite, em alto mar, ele se aproxima do velho e lhe diz: “Ei, marinheiro! tu conheces Oceanografia?”. “O que é isto?” “Como, tu não conheces Oceanografia, tu que diriges uma embarcação?! Que pena, tu desperdiçaste um quarto de tua vida.”
Na noite seguinte, ele volta e lhe diz: “Ei, marinheiro! tu conheces Meteorologia?” “Não.” “Que pena, tu desperdiçaste metade de tua vida.”
Na terceira noite, ele volta à carga: “Ei, marinheiro! tu conheces Astronomia?” “O que é isto?” “Como, tu diriges uma embarcação e tens que orientar-te pelas estrelas e não conheces Astronomia?! Que pena, tu desperdiçaste três quartos de tua vida.”
Duas horas mais tarde, o velho marinheiro chega, correndo, à cela do professor e o acorda: “Professor, professor! o senhor conhece Nadologia?” “Não, eu nunca aprendi a nadar.” “Que pena, o senhor perdeu toda sua vida — estamos afundando.”

Buda via, nestes temas, um grande perigo; porque, em grau menor, como já mencionei, sendo temas para os quais não há respostas definitivas, satisfatórias para todo mundo, dá ensejo a divergências de opiniões. Divergências de opinião, quando defendidas com paixão, com todo o ardor, levam para sentimentos de inimizade, a ofensas mútuas, brigas e querelas, e, em grau maior, para guerra entre as nações. A este respeito, O Mestre, certa vez, contou uma história alegórica.

Contou ele que, outrora, havia um rei que desejava se divertir. Ele mandou que recolhessem todos os cegos de nascença que havia na cidade e os trouxessem ao palácio. Feito isso, ele mandou que trouxessem um elefante; e, quando este estava no meio da corte, ordenou que o apresentassem a todos os cegos, de maneira que cada cego tateasse uma parte diferente do elefante. Feito isso, ele desceu do trono, aproximou-se deles e perguntou a cada um deles: “tu tateaste, tu já viste o elefante?” “Sim, senhor.” “E a que coisa é parecido este elefante?” Aquele que tocou na perna do animal disse: “É um pilar.” O que tocou na orelha, disse: “É um abanador gigante,” Aquele que tocou nas presas, disse: “É um arado.” O que tocou na cabeça do animal, disse: “É um pote.” O que tocou na ponta da cauda, disse: “É uma vassoura”, e assim por diante.

Daí a pouco, não tardou muito, e um cego chamava ao outro de mentiroso, que não era aquilo que ele pensava; aí, um terceiro entrou na briga e, em pouco tempo, formou-se uma confusão, todos eles se acusando e se ofendendo mutuamente, enquanto o rei, assistindo a todo, ria e se divertia.

E o Buda concluiu: “Os seres humanos são quais estes cegos: eles tateiam e enxergam uma parte da realidade, e pensam estar vendo a realidade toda e estão prontos a defendê-la a todo custo.”

A humanidade está cansada de ver guerras ideológicas de todo tipo. Já assistiu a muitas guerras feitas em nome de um ideal, de um conceito sublime como, por exemplo, o Deus — não faz muito tempo que tivemos uma destas, no Golfo Pérsico, como sabemos. Afora isso, existem alguns assuntos, algumas idéias, aparentemente inofensivas, mas que, a longo prazo, podem culminar numa tragédia humana. E tivemos uma no século 20. Fala-se muito na Segunda Guerra Mundial; houve o diabólico plano racial de Hitler, que queria livrar o mundo das raças impuras. Mas, a idéia não foi dele próprio: muito antes dele nascer, estas idéias raciais já circulavam pela Europa, em panfletos, livros, conferências. E, quando Hitler começou a se fortalecer politicamente, ele já encontrou a plataforma racial pronta, preparada pelos filósofos e cientistas alemães — e aguardava pelo executor. Afora isso, nós já sabemos daquelas experiências científicas nas quais são usados seres humanos como cobaias. Pouca gente sabe que houve antecedentes na antiga Índia. No tempo de Buda, por exemplo, havia um filósofo e cientista, Potthapâda era seu nome, e é considerado um dos pioneiros em experimentações científicas na antiga Índia. Em certa época, quando fazia experiências relacionadas à alma e ao corpo, — ele queria saber se realmente uma alma se desprendia do corpo —, uma das experiências que ele executou foi pegar um escravo, enfiá-lo dentro de um caldeirão cheio de óleo fervente e espreitar, de perto, para ver se no ato da expiração do pobre homem conseguiria observar o desprendimento de alguma alma do corpo.

Por várias vezes, o Buda justificou seu silêncio. Num dos diálogos mais bonitos e mais inspiradores, ele usa uma metáfora que, talvez, seja a mais popular e a mais conhecida dele. Vejamos os antecedentes e trechos deste diálogo:

[O venerável Mâlunkyâputta fora, autrora, um rico comerciante, que, deslumbrado pela vida espiritual dos ascetas, abandonara a família e possessões e viera a se juntar à Ordem budista. Passados alguns anos desde que se tornara um bikshu (monge-mendicante budista), um dia, enquanto meditava em solidão, ocorreu-lhe que Buda nunca, até então, tinha dado qualquer explanação acerca de certas teorias. Desgostoso e insatisfeito, procurou o Mestre, decidido que estava que, se não recebesse explanações acerca destas teorias, abandonaria a Ordem e voltaria à vida anterior. De início, O Buda indaga se o discípulo tinha sido por ele convidado a juntar-se à Ordem — o que é negado pelo bikshu; em seguida, indaga se o mesmo tinha se juntado à Ordem sob a condição de que ele, o Buda, explicaria todos estes dogmas metafísicos — o que, também, é negado pelo outro. Assim sendo, não havendo, portanto, compromisso de parte a parte, decorria que se não tratava de quebra de voto por parte do bikshu, ou seja, que este estava livre para fazer o que bem entendesse.

As explicações que o Buda dá, a seguir, sobre o por quê ele evita o exame das teorias especulativas, fazem o Mâlunkyâputta entender o equívoco em que incorrera e deixam-no, de todo, satisfeito.]

Mâlunkyâputta, aquele que dissesse assim: “Eu não levarei a vida divina sob (a orientação) do Mestre enquanto o Mestre não vem expor-me se o mundo é eterno ou se o mundo não é eterno... [etc., até] se o Tathâgata nem existe nem não existe após a morte”8 —, esta pessoa teria seu tempo (de vida) findado enquanto, isto, ainda permaneceria não exposto pelo Tathâgata.

É como se um homem fosse acertado por uma flecha espessamente untada com veneno, e seus amigos e colegas, conhecidos e parentes, providenciassem um médico e cirurgião, mas o ferido dissesse assim: “Eu não extrairei esta flecha enquanto eu não souber do homem que me feriu: se é um nobre-guerreiro, um religioso, um homem do povo ou um hilota (...) seu nome e linhagem (...) se alto, baixo ou de estatura mediana (...) se de tez escura, marrom ou clara (...) se é de tal e tal aldeia, vila-mercado ou cidade-fortaleza. Eu não extrairei esta flecha enquanto eu não souber do arco (...) da corda do arco (...) da haste da flecha (...) das plumas da haste... etc." Esta pessoa teria seu tempo (de vida) findado antes mesmo que isto se lhe tornasse conhecido (...)

Ó Mâlunkyâputta, enquanto houver o ponto de vista: “O mundo é eterno”, não existirá o viver na vida divina —, assim não! Enquanto houver o ponto de vista: “O mundo não é eterno”... [etc., até] “O Tathâgata nem existe nem não existe após a morte”, não existirá o viver na vida divina —, assim não! Enquanto estão havendo estes pontos de vista, o que existe sim é nascimento, existe velhice, existe morte, existem mágoa, lamentação, dor, angústia e desespero — cuja derribada eu dou a conhecer nesta mesma existência.

Conseqüentemente, Mâlunkyâputta, tende em mente o que não tem sido exposto por mim como não exposto, e tende em mente o que tem sido exposto por mim como exposto. E o que não tem sido exposto por mim? “O mundo é eterno” não tem sido exposto por mim; “O mundo não é eterno”, [etc...] não tem sido exposto por mim. E por quê isto não tem sido exposto por mim? Porque isto não está vinculado ao bem-estar, isto não é o ponto-de-partida para a divina vida, isto não conduz ao desencanto (pela vida mundana), à ausência de paixão, à cessação (do sofrimento), ao apaziguamento, ao conhecimento supremo, não conduz à Iluminação e ao Nirvana. E o que tem sido exposto por mim? Tem sido exposto: “isto é sofrimento”; “isto é a origem do sofrimento”; “isto é a cessação do sofrimento”; “isto é a via que leva à cessação do sofrimento”. E por quê isto tem sido exposto por mim? Porque isto está vinculado ao bem-estar, isto é ponto-de-partida para a divina vida, isto conduz ao desencanto (pela vida mundana), à ausência de paixão, à cessação (do sofrimento), ao apaziguamento, ao conhecimento supremo, à Iluminação e ao Nirvana. Por este motivo isto tem sido exposto por mim.

(Majjhima Nikâya, Sutta 63 [I.428-32])

9.a Vamos descrever agora, acompanhada de exemplos, a maneira do Buda abordar os temas ou as pessoas, principalmente os leigos. Uma delas, já vimos, é quando ele faz uma contra-pergunta e, com isso, obriga o próprio inquiridor a responder. Vou dar um exemplo, porque trata-se, também, de um assunto que, muitas vezes, nos diz respeito. Freqüentemente faz-se a pergunta: Deve uma pessoa ser sempre franca? Deve ele dizer sempre o que pensa, em qualquer circunstância, a qualquer pessoa? Eu já vi pessoas nesta vida, conheci pessoas na vida — e eu sou uma delas — que perderam amizades por causa de uma franqueza irrestrita e não-controlada. Buda disse certa vez que uma verdade dita em tempo inoportuno é pior do que uma mentira. O episódio que contarei é, resumidamente, o seguinte:

Buda foi tomar, um dia, sua refeição na casa de um príncipe, a convite deste; após a refeição, o príncipe sentado ao lado dele e segurando uma criança no colo, perguntou ao Buda se ele falava, às vezes, palavras desagradáveis e desaprazíveis aos seus discípulos. Buda respondeu afirmativamente e, por sua vez, indagou do príncipe: “Suponha que esta criança, que está no seu colo, enquanto brinca, venha a pôr uma pedra na boca; o que você faria?” E o príncipe respondeu: “Sem titubear, seguraria, com uma mão, sua cabeça enquanto, com a outra, enfiaria os dedos na sua garganta e tiraria à força essa pedra, nem que para isso fosse necessário derramar-lhe sangue. E por quê eu faria isto? Porque é meu filho, porque o amo, porque lhe tenho paixão.” “Da mesma maneira”, responde Buda, “eu também, às vezes, posso falar palavras desagradáveis, desaprazíveis, quando há necessidade para tal e por compaixão pelos meus discípulos.”

De toda essa conversa, vou destacar, como essencial, dois pontos: De acordo com o Mestre, uma fala que é verdadeira, real, útil, mas desagradável e desaprazível, o Mestre sabe o tempo oportuno para proferí-la. Fala que é verdadeira, real, útil, mas também prazerosa e agradável, disto também o Mestre sabe o tempo oportuno para proferí-la.

Praticamente, a única ocasião em que o Buda se mostrava "durão" e rigoroso, falando palavras um tanto desagradáveis, era quando algum dos seus discípulos destorcia, deturpava suas palavras, seus ensinamentos — coisa que Buda não admitia de maneira nenhuma. Pelas suas próprias palavras, isto o deixava "desgostoso, aborrecido". Ele também previa acúmulo de deméritos e possível futuro infeliz para o envolvido.9

9.b Podemos dizer que, de maneira geral, tanto o Buda como seus discípulos iluminados, os Arahats, adotavam dois distintos métodos de abordagem: o “semi-racional” e o “racional”. No primeiro, o Buda não opunha uma resistência aberta e direta aos costumes e hábitos de seu interlocutor — discípulo ou não. Em se tratando de uma pessoa que seguia os costumes ou ritos religiosos de seus antepassados, por exemplo, Buda não os rejeitava, mas os transformava, dando-lhes um cunho moral mais afim com seu próprio ensinamento ou uma forma universal aceitável a todos os principais ensinamentos. Assim, se o dono-de-casa em questão mandava executar ritual sacrifical no qual abatiam-se animais, Buda lhe dizia que este não era o sacrifício correto no Caminho dos Nobres. Isto despertava a curiosidade do interlocutor que pedia ao Buda explicar-lhe como seria o sacrifício correto. Ele recebia então a descrição de um sacrifício que simbolicamente substituía o abate de animais por outro ato.10 Isto deixava o leigo completamente contente: de um lado, não foi solicitado a abandonar seus costumes ancestrais; por outro, não mais contribuirá para o exercício de um ato violento, com o que ele ganhará méritos.

O segundo método subdivide-se em racional suave ou moderado e em racional direto ou de choque. No primeiro caso, este emprega-se geralmente com leigos que estejam num nível espiritual razoavelmente bom ou quando se trata de um discípulo muito especial, como no exemplo que damos a seguir:

Certa vez, o Bem-aventurado falou isto ao Anâthapindika:

“Chefe de família, há cinco coisas desejáveis, prazerosas e agradáveis que são raras no mundo. Quais são estas cinco? Longevidade, beleza, felicidade, fama e (renascimento num) céu. Mas eu não ensino, chefe de família, que estas cinco coisas devam ser obtidas por meio de reza ou por votos. Se alguém pudesse obtê-las por reza ou votos, quem não o faria?

Para um nobre discípulo, ó chefe de família, que desejasse ter uma longa vida, não lhe é condizente que venha ele a rezar por longevidade ou se deleite em fazê-lo. Antes, ele deveria seguir um caminho de vida que fosse conducente à longevidade. Seguindo tal caminho, ele obterá longevidade, seja esta divina ou humana.

Para um nobre discípulo, ó chefe de família, que deseja ter beleza… felicidade… fama… (renascimento num) céu, não lhe é condizente que venha ele a rezar por eles ou se deleite em fazê-lo. Antes, ele deveria seguir um caminho de vida que fosse conducente à beleza… à felicidade… à fama… ao (renascimento num) céu. Seguindo tal caminho, ele obterá beleza, felicidade, fama e (renascimento num) céu.

(Anguttara Nikâya, V.43)

O outro exemplo é o método racional direto, a maneira direta dele abordar as pessoas — quando ele sente que a coisa já está madura e pode colher o fruto prontamente. Um exemplo: Um dia, um grupo de dez príncipes decidem fazer piquenique e se divertir num bosque, que, àquela época, chamavam-se “bosques-dos-prazeres”. Todos possuíam esposas, menos um; por isso, eles contrataram os serviços de uma cortesão profissional. Enquanto se divertiam no bosque, em dado momento, aproveitando o cochilo, a cortesão recolhe os pertences mais valiosos e foge. Os príncipes, dando-se conta disso, saem no encalço dela. Enquanto procuram por ela no bosque, avistam um asceta sentado ao pé de uma árvore; aproximando-se dele, indagam se o mesmo havia visto uma tal e tal mulher e lhe explicam tratar-se de uma cortesão que lhes havia furtado os pertences. Então Buda pergunta: “Jovens, o que vós pensais ser a coisa mais importante e valiosa nesta vida: sair à procura de uma cortesão ou sair à procura de si próprio?” Passado o primeiro espanto, os príncipes responderam que, naturalmente, sair à procura de si próprio era mais valioso e importante. E o Buda disse-lhes: “Então, jovens, sentai-vos à minha frente que eu vos contarei como é que no caminho dos nobres um homem sai à procura de si próprio.” Quando terminou a exposição, a população da Ordem budista tinha aumentado em dez homens.

Não podemos deixar de mencionar um outro exemplo que envolve uma das discípulas religiosas (bikshuni) mais famosas de Buda, Dhammadinnâ.12 Certa vez, quando ela se encaminhava para o vilarejo próximo para sua ronda de mendicância matinal, avistou um homem que saía do rio, molhado. Provocadoramente indagou do mesmo o que ele fazia, recebendo como resposta a explicação de que acabara de efetuar a sagrada ablução diária; questionado por que ele a fazia, respondeu: “Venerável Senhora, nós fazemos ablução diária para purificar nossos corações.” E ela arremeteu: “Se ablução na água pudesse purificar os corações, os seres mais puros neste mundo seriam… os peixes.” Com isto deu-se um estalo na mente do homem, seus olhos abriram-se para a realidade e ele estava agora apto a entender a mensagem do Darma.

9.c Uma característica notável de Buda era sua ironia, da qual se valia freqüentemente para contradizer seu interlocutor. Um método muito usado por Sócrates, também. Um dia, ele recebe a visita de um jovem brâmane. Ele pergunta: “Jovem, o que de bom teu mestre ensina?” O jovem responde: “Ele ensina sobre o homem perfeito.” “O que vem a ser o homem perfeito de acordo com teu mestre?” indaga o Buda. “De acordo com o meu mestre, o homem perfeito é aquele homem puro que não tem relações sexuais, é passivo, não alimenta pensamentos inimicais contra terceiros, não briga com ninguém, não faz mal a ninguém, não mata seres vivos, se contenta com pouco... (e mais algumas qualificações).” Então Buda responde: “Neste caso, jovem, o homem perfeito do teu mestre é a criança de colo, ainda em estágio de amamentação: ela é pura, não tem relações sexuais, é passiva, não tem pensamentos inimicais contra terceiros, (etc., repetindo todas as qualificações antes mencionadas.)”.

Mas Buda não usava a ironia para degradar ou ofender outros; ele a usava como primeiro passo para a derrubada de uma tese, apresentando, em seguida uma outra tese que era, a seu ver, superior. É o que acontece aqui também.

Em outra ocasião, um jovem brâmane foi ver o Buda e encetou com ele uma conversação; no decorrer desta o jovem gabou-se da sua condição social bramânica: “Somos herdeiros do Grande Brahmâ, fomos criados pela boca do Grande Brahmâ…”, etc. Buda rebateu ironicamente esta pretensão, dizendo entre outras coisas: “Que nós saibamos, tua mãe tem funções femininas parecidas às outras mulheres; periodicamente, desponta nela o corrimento do fluido vermelho (mestruação), e ela dá à luz pelo útero… Agora, dizer que alguém proveio pela boca de Brahmâ, seria perpetrar um insulto e ultraje ao mesmo [pela identificação do útero com a boca do deus]”.

10. Como fecho do nosso ensaio, leiamos um perfil moral de Buda traçado pelos seus conterrâneos. O Buda disse que os homens comuns conheciam-no por estas qualidades menores, mas que ele tinha qualidades infinitamente superiores a estas. Vamos ouvir estas qualidades “menores”.

Tendo abandonado a tomada de vida aos seres, o sramana Gotama é um abstinente de tomada de vida; ele que pôs de lado a vara e a espada, sentindo vergonha (moral), agora mostra bondade a todos os seres, e vive como seu amigo.

Tendo abandonado a tomada daquilo que não é dado, o sramana Gotama é um abstinente da tomada daquilo que não é dado; tomando somente aquilo que é dado, aguarda pelo donativo. Não cometendo nenhum furto, ele vive como alguém cujo ser é puro.

Tendo renunciado ao mundo e se tornado um seguidor da vida divina, o sramana Gotama vive afastado do que é mundano e abstém-se dos prazeres sensuais.

Tendo abandonado a fala mentirosa, ele é um abstinente da fala mentirosa; ele é veraz, fidedigno, firme, digno de confiança e não é embusteiro do mundo.

Tendo abandonado a fala caluniosa, é ele um abstinente de fala caluniosa; tendo ouvido (algo) aqui o não relata acolá com o fito de causar dissensão entre os de cá, ou tendo ouvido (algo) acolá o não relata aqui com o fito de causar dissensão entre os de lá; desta maneira ele é um conciliador dos divididos, ou um encorajador dos unidos. Ele acha prazer na harmonia, deleita-se na harmonia, regozija-se na harmonia e torna-se um enunciador de fala promovedora de harmonia.

Tendo abandonado a fala rude, ele é um abstinente de fala rude; justamente aquela fala que é imaculada, agradável ou ouvido, afável, que toca o coração, polida, aprazível e encantadora a muita gente —, de tal tipo de fala torna-se ele um enunciador.

Tendo abandonado a tagarelice frívola, ele é um abstinente de tagarelice frívola; ele fala no tempo apropriado, fala daquilo que é real, fala do que tem sentido, fala do Darma (lei natural), fala dos regulamentos disciplinares; em tempo oportuno ele pronuncia palavras (que valem) entesourar, bem-fundamentadas, circunscritas e proveitosas.
(Anguttara Nikâya V.205 [X No.99])


Disse o Buda: “Assim como o vasto oceano é impregnado de um só sabor — o sabor do sal, assim também este Darma (Ensinamento) está impregnado de um só sabor — o sabor da liberdade.”

(Vinaya Pitâka, ii.239; AN, VIII.19)

* * *

Notas

1. Este ensaio baseiou-se na transcrição de gravação feita durante palestra proferida na ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA, SP, em 25 de maio de 1985, por ocasião do lançamento do livro “A Senda da Virtude — Dhammapada”. O texto foi revisado e nova matéria acrescentada.

2. Os comerciantes Tapussa e Bhallika estavam passando nas cercanias com sua caravana de mercadorias, quando um deva (ser radiante que reside numa esfera celestial), que era seu parente, incitou-os a servir com alimento o Afortunado, dizendo-lhes que este acabara de se iluminar e que servi-lo seria para eles uma bênção e felicidade por muito tempo. Quando o Mestre acabou de se servir do alimento oferecido, os dois comerciantes disseram-lhe: “Nós, venerável Senhor, somos aqueles que vão ao Afortunado como refúgio e também ao dhamma; que o Afortunado nos aceite como discípulos leigos idos ao refúgio, a partir deste dia e pelo resto da vida.”

Assim, eles tornaram-se os primeiros discípulos leigos no mundo, usando a fórmula de duas-palavras, isto é, se dirigiram ao bhagavâ (Afortunado e não buddha) e ao dhamma, já que o Sangha (Ordem) ainda não existia.

3. Estes pontos mencionados por Buda, fazem parte do Darma (lei natural) por ele descoberto e sua compreensão total e absoluta só é dada aos que atingem certos estágios espirituais no caminho do desenvolvimento mental.

4. Buda ofereceu dois ideais de felicidade: há a via de renúncia do bikshu/bikshuni (monge/monja-mendicante) em busca de completa paz e quietude (nirvana), e há aquela do leigo que fez um compromisso com a vida. Enquanto o recluso, que busca a libertação final do sofrimento, obterá paz interna, o objetivo do leigo probo é o viver harmonioso nesta mesma vida e a esperança de ter um renascimento mais favorável como ser humano ou renascer numa esfera superior, como a dos devas.

Veja na secção 6, último parágrafo e Nota 9.

5. Literalmente: assim-ido ou assim-vindo; é como o Buda se utodenominava.

6. anattâ, literalmente: não si-mesmo; quando se refere à personalidade: não-eu, impessoalidade.

7. Para maiores detalhes sobre os ensinamentos básicos de Buda, veja parte A do ensaio “A Roda da Vida”, publicação do CEB.

8. As dez perguntas especulativas que se faziam à época eram: (i) é o mundo eterno? ou (ii) é o mundo não-eterno (efêmero)?; (iii) é o mundo finito? ou (iv) é o mundo infinito?; (v) é o princípio vital (alma?) o mesmo que o corpo (físico)? ou (vi) é o princípio vital uma coisa e o corpo outra?; (vii) existe o Tathâgata após a morte? ou (viii) o Tathâgata não existe após a morte? ou (ix) o Tathâgata, ao mesmo tempo, existe e não existe após a morte? ou (x) o Tathâgata nem existe nem não existe após a morte? (por mundo, deve-se entender o universo).

9. Talvez seja oportuno mencionar aqui um ato demeritório e insultuoso que alguns cometem quando atribuem ao Buda a declaração de que todos (religiosos, como leigos) podem se iluminar. A posição oficial de todas as escolas e seitas budistas atualmente é a de que a Iluminação esteja ao alcance de todos. Esta não era a posição original do Theravâda antigamente, que se conformava com as evidências encontradas no cânone, do qual apresentamos acima alguns exemplos. No decorrer do tempo, porém, por razões que não vamos expor aqui, seu pensamento a respeito deste assunto mudou, vindo alinhar-se à posição das outras escolas. Poderíamos considerar isto uma mudança normal, e a posição atual, como um processo natural, considerando a condição e natureza humanas. Os seguidores budistas decidirão individualmente se aceitam ou não esta posição ou crença. O que não pode ser feito, porém, é atribuí-la ao Buda.

Seria de grande interesse para os budistas leigos saber o que Buda pensava a respeito da possibilidade de os leigos poderem atingir a Iluminação. Nós já vimos que, com relação aos religiosos, ele disse que uns podem e outros não; e com relação aos leigos? Uma resposta clara a esta indagação encontramos, entre outros, no Mahâvacchagotta Sutta (Majjhima Nikâya, Sutta 73). Ao ser inquirido pelo andarilho Vacchagotta, Buda responde que muitos dos seus discípulos, leigos e leigas, que vestem a túnica branca e levam uma vida de celibato (anâgârika), eles, com a destruição dos cinco grilhões inferiores, reaparecerão espontaneamente [em Esferas Puras], e lá eles atingirão o nirvana final sem que jamais tenham de retornar daquele mundo. Esta questão refere-se ao estágio de santidade conhecida como a de "não-retorno" (anâgâmin) (para maiores detalhes, veja verbetes Arahat e Grilhões no Glossário do livro Dhammapada, de nossa autoria e publicado pela Editora Palas Athena).

A uma outra pergunta com relação aos discípulos leigos/leigas que ainda gozavam dos prazeres sensuais, Buda responde dizendo que muitos deles que vestem a túnica branca, que levam a cabo suas instruções, respondem a seus conselhos e que superaram a dúvida — tornam-se livres de perplexidade, ganham intrepidez e viram independentes de outros no Ensino do Mestre. Em outros contextos, Buda explica que dependendo do estágio espiritual alcançado pelo discípulo leigo, este pode vir a (re)surgir, após a dissolução do corpo, numa das várias esferas superiores, indo desde a esfera mais baixa dos devas até a mais alta, a do deus Brahmâ.

A posição de Buda era inequívoca quanto a esta questão de iluminação: só tinha alguma chance de se iluminar nesta vida terrena o ser humano que abandonasse a vida de casa e abraçasse a vida de sem-lar, isto é, se tornasse um asceta; alguns leigos que atingissem um dado estágio espiritual elevado, poderiam ter esta possibilidade num futuro indefinido, numa outra esfera de vida que não neste nosso mundo; finalmente, para os outros leigos restava o consolo de poderem ressurgir numa outra esfera, ou neste mesmo mundo (o que é mais raro) em condições mais favoráveis do que as anteriores.

10. Para um exemplo clássico deste método, veja o sutra Sigalovâda Sutta “Conselhos ao Jovem Sigâla”, publicação do CEB e disponível na WEB.

11. Este método de choque, como sabemos, foi muito apreciado pelos mestres Zen em todas as épocas, que o empregaram nos seus koans.

12. Ela era possuída da dádiva do ensino, isto é, era proeminente na transmissão do Darma. Era ela esposa do Visâkha de Râjagaha e, quando ele tornou-se um anâgâmin (veja Nota 9), depois de ter ouvido o Buda discursar, ela deixou a vida caseira com o consentimento do marido. Ordenada, morou e praticou em solidão, atingindo, cedo, o estado de Arahat. Sempre que passava pela sua cidade natal, seu marido acorria ao seu encontro e lhe fazia à ex-esposa perguntas sobre o Darma, que ela respondia “tão facilmente quanto alguém que cortasse um caule de lótus com uma faca afiada.” Os diálogos entre os dois, conservados no Canône, é dos mais enlevados e interessantes para os leigos.

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Nissim Cohen

(upâsaka Dhammasâri)

7/1/2001


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