CENTRO DE ESTUDOS BÚDICOS
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NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMÂSAMBUDDHASSA
Homenagem a Ele, ao Afortunado, ao Consumado, ao Perfeitamente Iluminado
Os estudiosos japoneses cunharam uma palavra para o ensinamento de Buda: o Budismo Primitivo; isto porque o ensinamento de Buda foi o núcleo, a origem de todas aquelas escolas e seitas que se desenvolveram mais tarde. Mas Budismo Primitivo, naturalmente, no nosso caso atual, não significa que estejamos tratando de um ensinamento ultrapassado, caduco nada disso! Ao contrário, o ensinamento de Buda, nas últimas duas décadas pelo menos, está em franca expansão no Ocidente. E vagarosamente, mas firmemente, tem influenciado algumas personalidades ligadas aos mais diversos ramos da atividade humana. Ao mesmo tempo, e paralelamente a isto, mais e mais pessoas estão descobrindo que este ensinamento oferece meios adequados para enfrentar cada vez melhor os desafios que a moderna vida nos lança constantemente.
Nas antigas escrituras (Cânone Páli) não encontramos nenhuma biografia de Buda; o que há são trechos autobiográficos, recordações que o próprio Buda conta em diversas ocasiões. As biografias semi-lendárias sobre Buda, tanto em páli como em sânscrito, apareceram séculos mais tarde, mas foi só recentemente que foram colocadas ao alcance do público ocidental (a mais famosa delas é a Lalita Vistara). O que no Ocidente se conhece como biografia de Buda na verdade é uma obra de ficção, um poema épico escrito por um poeta inglês, Sir Arnold, chamado A Luz Da Ásia ou A Grande Renúncia; e para escrevê-lo o poeta baseou-se numa dessas biografias antigas.
Antes de contar alguns episódios da vida de Buda, eu gostaria de ressalvar e ressaltar aqui um ponto muito importante. O Budismo Primitivo não era uma religião propriamente dita, ao contrário do que muitos pensam; antes de mais nada, era uma técnica de viver, era um caminho de vida que se percorria pela adoção de um conjunto de práticas, de ordem moral, mental e de conhecimento superior. O Buda organizou e estruturou estas práticas de tal maneira que os seus primeiros estágios, os mais simples, eram passíveis de serem modificados e adaptados às necessidades de cada tipo de pessoa. Embora este Budismo Primitivo, nos séculos subseqüentes ao de Buda, tenha se desmembrado num grande número de escolas e seitas de múltiplas facetas que, com o correr do tempo, adquiriram as características de uma verdadeira religião , aqueles ensinamentos básicos foram preservados e permanecem até os dias de hoje. Conseqüentemente, esta flexibilidade do Budismo, aliada ao fato de que no que diz respeito à meditação não está compromissado com qualquer religiosidade permite às pessoas dos mais diferentes credos ou crenças a praticarem-no. Uma prova disso são os muitos padres e pastores e, até um rabino já encontrei, num dos retiros de meditação que fizeram estes cursos e, depois, em artigos e livros testemunharam, escrevendo o quanto útil isto lhes tem sido para as suas funções normais.
2. Pelas antigas escrituras, a imagem que nós temos de Sidarta Gotama o nome dele antes da Iluminação é a de um jovem à volta com problemas existenciais, aflito e angustiado por questões ligadas ao mistério e enigma da vida: a observação de que as coisas nesta vida são passageiras, transientes e impermanentes; a constatação de que a insatisfação ou sofrimento ser um fenômeno mais geral, mais abrangente, mais duradouro do que a sua contrapartida, a felicidade, de mais escassos momentos e menos duradoura. E acima de tudo, o enigma, o mistério da vida que se expressa naquele ciclo interminável que começa com nascimento, caminha rumo ao envelhecimento, termina na morte para recomeçar de novo no nascimento; depois o envelhecimento, morte e assim infinitamente.
Àquela época, na Índia, com exceção de um pequeno grupo de materialistas e céticos, a maioria da população aceitava alguma forma de renascimento ou transmigração; e o ideal que todos almejavam, que todos desejavam, era uma solução que pusesse fim a este ciclo da vida, que colocasse um termo ao nascimento e morte. A esta solução final ou salvação eles chamavam de Nirvana; mas, por este termo cada um entendia uma coisa completamente diferente de outra.
Geralmente existiam três atitudes na época com relação a esta solução: uma parte da população acreditava que pela observância de certos rituais religiosos, participando de sacrifícios religiosos eles pudessem ter um renascimento melhor; outros, ainda, esperavam que por bons atos, boas ações e o conseqüente acúmulo de merecimento devido a isso, viessem, quiçá, renascer numa esfera celestial mais feliz; e, finalmente, havia um pequeno grupo de pessoas uma minoria, é verdade, mas ainda assim constituída de muitos milhares de pessoas que não ficavam satisfeitas com estas soluções parciais e queriam a solução final e global que é o Nirvana. Mas, para que a pessoa se habilitasse a percorrer este caminho rumo a uma solução final, era premissa básica deles de que a pessoa, antes de mais nada, viesse a cortar todo e qualquer vínculo afetivo e material que ele pudesse ter nesta vida. Em palavras simples, isso significava tornar-se a pessoa um eremita, um asceta ou um sramana, que significa um filósofo andarilho. Por isso nós não ficamos surpresos que o Sidarta, que desejava uma solução final, tivesse escolhido este último caminho. Quem já conhece a vida lendária de Buda sabe que nela este ato é apresentado como de grande sacrifício, de grande heroísmo e de abnegação. Mas, o fato histórico, pelas antigas escrituras, é este que acabei de contar.
3. Leiamos, agora, algumas dessas recordações do próprio Buda relativas a esse período.
Eu tinha três palácios: um para a estação do frio, um para a do calor e outro para a estação das chuvas. Durante os quatro meses chuvosos, no palácio para a estação chuvosa, eu era entretido exclusivamente por menestréis femininos, e eu nunca saía deste palácio. Embora refeições de arroz quebrado e sopa de lentilha fossem dadas aos criados e empregados nas outras residências, na casa do meu pai estes eram servidos com arroz branco e carne.
[A mesma reflexão repete-se com relação à doença, terminando em:]
(...) e o orgulho que tinha pela saúde inteiramente me abandonou.
[E, finalmente, com relação à morte:]
Antes da minha Iluminação, discípulos,
enquanto eu ainda era um Bodisatva (um ser candidato à Iluminação),
não-desperto, estando eu próprio sujeito ao nascimento, envelhecimento,
doença, morte, tristeza e impurezas, andava eu em busca do que estava
igualmente sujeito a estas coisas. Então eu pensei: Por que, estando
eu próprio sujeito ao nascimento, envelhecimento, doença, morte, tristeza
e impurezas, estou eu a andar em busca do que também está sujeito a
estas coisas? Suponha que eu, estando sujeito a estas coisas e nelas
vendo um perigo, for em busca do não-nascido, do que é isento de envelhecimento
e doença, da não-morte, do que é isento de tristeza e impurezas, e da
suprema cessação de todos os liames isto é, do que é o Nirvana?
(Majjhima Nikâya, Sutta 26)
Antes da minha Iluminação, discípulos,
enquanto eu ainda era um Bodisatva, não-desperto, eu pensei:
A vida caseira é apertada e poeirenta; a vida de sem-casa é ampla
e aberta. Não é fácil, vivendo numa casa, levar uma divina vida tão
perfeita e pura quanto uma concha polida. Suponha que eu cortasse cabelos
e barba, vestisse o manto amarelo e fosse embora da vida de casa para
a de sem-casa?
(Majjhima Nikâya, Sutta 36 - MN, Sutta 100)
Então, eu, discípulos, após algum tempo,
sendo ainda jovem, de cabelos pretos qual carvão, possuído de juventude
radiante e nos primórdios da vida, cortei meus cabelos e barba
embora meus pais se opusessem e estivessem a chorar e a lamentar ,
e vestindo o manto amarelo, fui embora da vida de casa para a de sem-casa.
Assim, abracei a vida de asceta, buscando o que é salutar, procurando
o incomparável, o sublime estado de paz.
(Majjhima Nikâya, Sutta 26 Sutta 36
Sutta 85 Sutta 100)
Nós notamos aqui duas coisas: Primeiro, esta descrição que acabamos de ouvir não tem nada semelhante à vida semi-lendária de Buda; em segundo lugar, não há aqui qualquer menção de uma esposa ou filho. Pelo que sabemos, o único trecho onde isto é mencionado, é na primeira divisão do Cânone Páli, o Livro da Disciplina (Vinaya Pitaka, Mvu i.54). De acordo com este, Buda, pouco tempo depois da sua iluminação, foi visitar sua cidade natal Kapilavastu. Uma manhã, ele aproximou-se da residência de seu pai e foi convidado a entrar e sentar-se. Enquanto assim sentado, a senhora, mãe de Ráhula (não se menciona o nome dela!), falou assim ao menino: "Este, Ráhula, é teu pai; vá e peça tua herança".
4. Assim, nós vemos o Sidarta começar a sua vida de
sramana (filósofo-andarilho), a sua carreira de aprendiz que se prolongará
por seis anos; um período bastante curto se levamos em consideração o que
ele conseguiu neste tempo. No início ele estudou com um mestre, Âlâra Kâlâma,
e, com as instruções que dele recebeu, conseguiu atingir o mesmo estágio espiritual
do próprio mestre; mas, não ficou contente, estava insatisfeito, porque, a
seu ver, ele ainda não tinha alcançado a plena Iluminação. Então, largou este
mestre, continuou a vaguear por aí e foi estudar com Uddaka Râmaputta, um
mestre bastante conhecido e que estava num estágio espiritual acima do mestre
anterior (estágio este conhecido como nem-percepção-nem-não-percepção). Com
este se repete a mesma história: com afinco e dedicação se entrega à prática,
e em pouco tempo atinge o mesmo estágio espiritual deste mestre. Por sinal,
um estágio elevadíssimo, e, a julgar pelo fato de que o Buda nunca mais depois
disto pôde encontrar alguém em estágio superior a este, é uma prova de que
este seria o último estágio espiritual que se conhecia à época na antiga Índia.
Depois que ele largou também este segundo mestre, ele continuou
sua vida de filósofo-andarilho por mais algum tempo; mas, muito pouco ele
conta acerca deste período intermediário, aparentemente porque não deva ter
achado algo importante. Finalmente, um dia, quando ele passava em revista
tudo quanto já tinha absorvido, aprendido, praticado, ele notou, então, que
havia ainda uma doutrina, uma só que a não tinha experimentado: era a doutrina
da autoflagelação ou da automortificação. Na vida lendária se diz que Buda
a teria desprezado, mas não é o que consta nas escrituras.
Como sabemos, em outras partes do mundo também existiu a
autoflagelação e até hoje existe. Tem-se os seus resquícios no Cristianismo
por exemplo, na semana de Páscoa, quando algumas pessoas se submetem
a vários tipos de autoflagelação. Nenhuma destas, porém, poderia comparar-se,
em rigor, com aquela que existia na antiga Índia. Esta era constituída de
uma vasta e riquíssima gama de modalidades e variedades. Cada uma, por sua
vez, se compunha de uma grande série de práticas diferentes. Os métodos só
eram limitados pela natural limitação da imaginação humana.
Então, Sidarta escolheu um grupo de modalidades de autoflagelação
para experimentar. Aquelas que pensava que talvez o levassem à tal almejada
Iluminação. E ele tomou a decisão de que haveria de experimentar essas autoflagelações
com tal rigor que nunca nenhum ser humano antes dele as havia experimentado,
nem conseguiria alguém depois dele a experimentá-las. Eu vou mencionar aqui
apenas duas dessas modalidades, não só porque mostra algumas características
e alguns traços da sua personalidade como fibra, tenacidade, coragem,
sabedoria mas, também, porque tiveram alguns desdobramentos na sua
vida posterior.
A primeira dessas experiências refere-se a uma emoção das
mais básicas no ser humano e também nos animais: o medo. Enquanto estudava
com os dois mestres, o Sidarta havia feito uma descoberta muito importante:
certas emoções básicas como o medo e alguns estados mentais meio corruptos,
destorcidos, não existem naquelas pessoas que chamamos de santos ou que estejam
em estágio espiritual bastante elevado ou, pelo menos, aparentam não
existir. Ao fazer uma auto-análise psicológica, Sidarta descobriu que estes
estados, na verdade, estavam jazendo latentes no fundo do coração, embora
completamente dominados e subjugados, e, para todos os efeitos, como que não
existindo. Mas, de outro lado, ele, com base na intuição, na sabedoria, estava
convencido de que sem erradicá-los completamente, extirpá-los, não se poderia
chegar à Perfeita Iluminação. Por isso, decidiu levar a cabo algumas experimentações
psicológicas, escolhendo, como cobaia, exatamente essa emoção, o medo, porque
é uma das mais difíceis de erradicar. Havia um porém: conforme o Buda conta
nas suas memórias, situações comuns, que normalmente levariam as pessoas ordinárias
ao pânico ou ao terror, nele, em Sidarta, devido ao estágio espiritual no
qual estava na ocasião, não causariam o menor arranhão na sua mente. Por isso
ele foi obrigado a maquinar, tramar e inventar situações artificiais para
que pudesse evocar essa emoção e trazê-la à tona.
Vou mencionar uma de suas experiências com o medo. Naquela
época existiam terrenos baldios, cemitérios ao céu aberto, onde pessoas de
certas crenças religiosas depositavam seus mortos para que fossem presas das
aves de rapina e animais selvagens. Durante longo tempo, noite após noite,
Sidarta passava, num desses cemitérios, deitado entre cadáveres, esqueletos,
ora encostado nuns, ora abraçado a outros. A descrição que ele faz dos estados
emocionais e mentais aos quais é submetido, é impressionante, como também
serve de modelo e lição psicológicos que, dificilmente, se poderia repetir
hoje em laboratórios de uma maneira artificial. Quando o Buda estava, em certa
ocasião, contando este episódio aos seus discípulos, um deles, que postava-se
atrás do Mestre e lhe abanava porque o dia era de intenso calor
exclamou: Espantoso, Senhor; maravilhoso, Senhor! Enquanto eu escutava
este seu discurso, meus cabelos ficaram de pé. Que nome nós daremos a este
seu discurso, Senhor? E o Buda responde: Se quiseres, podes chamá-lo
de O Discurso dos Cabelos que Ficaram de Pé .
A segunda modalidade que ele experimentou e que vou mencionar
aqui, refere-se à alimentação. Também neste caso, vou contar só uma delas,
a mais moderada de todas, porque as outras poucas pessoas teriam estômago
e nervos para escutá-la. Inicialmente, ele tentou aumentar o espaço de tempo
entre duas refeições: de uma refeição por dia, passou para uma refeição a
cada dois dias; depois uma a cada três dias, até tomar uma só refeição a cada
quinze dias. Após, foi diminuindo a quantidade do alimento ingerido, até chegar
a se alimentar com um grão de arroz por dia. Quando ele contava isto, ele
comentou com bom humor: Não pensem, não cometam o erro de pensar que
o grão de arroz naquela época era grande, gigante; nada disso, não! Ele era
igualzinho ao de hoje. O resultado dessas experiências com a alimentação,
Buda as descreve de uma maneira muito expressiva, que eu vou ler para vocês.
(...) Meu corpo tornou-se extremamente emaciado; todos os meus membros
tornaram-se quais juntas de bambu devido à pouca comida. A marca que
deixava no assento era do tamanho do casco do camelo devido à pouca
comida. As projeções da minha espinha dorsal tornaram-se qual enfiada de contas
devido à pouca comida. Tal como o vigamento de um velho abrigo que
se projeta para a frente, assim mesmo minhas costelas estavam salientes; e
como a água de baixo nível que cintila no fundo de um poço profundo, assim
o brilho dos meus olhos surgiam das profundezas das órbitas afundadas
devido à pouca comida. Quando eu pensava estar tocando a pele do meu abdômen,
era a minha coluna que eu segurava, e quando pensava estar tocando na minha
coluna, era a pele do meu abdômen que eu tocava de tal maneira a pele
do abdômen estava grudada à coluna, devido à pouca comida. Quando seres humanos
me viram, eles disseram: O sramana Gotama é preto. Outros disseram:
O sramana Gotama não é preto, ele é marrom. Alguns outros disseram
ainda: O sramana Gotama não é preto nem marrom; ele é de cor amarela.
A tal ponto minha tez pura e clara havia se deteriorado devido à tão
pouca comida.
(Majjhima Nikâya, Sutta 36 MN, Sutta 85 MN,
Sutta 100)
Xáquia-Múni Praticando Austeridades
Assim, ele tratou, antes de mais nada, de fortalecer o corpo para, com isso, dar
condições à sua mente fazer a última tentativa. Isto é um ponto importante, porque
nos mostra o inter-relacionamento entre corpo e mente. Depois, tratou de achar um lugar
adequado para esta tentativa; e achou-o perto de um vilarejo de nome Uruvelâ (Bodh
Gayâ), à margem de um rio, Nerañjarâ, de suave correnteza e águas cristalinas,
margeado de bonitas e frondosas árvores de largas copas, que se espraiavam para todos os
lados formando uma sombra muito agradável, amenizando a alta temperatura que normalmente
nesta época do ano chega a 45 graus na sombra. Ele achou este lugar muito delicioso e
gostoso; escolheu uma árvore — conhecida como árvore-Bo (árvore da Iluminação, ficus religiosa) —,
sentando-se ao pé dela, com a determinação de que ou ele
se levantaria daqui como um iluminado, ou ficaria sentado lá até que pele e carne e osso
e sangue viessem a secar completamente e se tornassem pó. Foi neste local, portanto, e
sentado debaixo desta árvore durante sete dias e sete noites com as pernas cruzadas, que o
Sidarta Gotama tornou-se um Buda.
O resultado final desta Iluminação o Buda descreve de duas maneiras. Na primeira
versão, suas últimas frases são:
(...) Assim eu, discípulos, estando sujeito ao nascimento,
envelhecimento, doença, morte, tristeza e impurezas; tendo conhecido o perigo a eles
inerente, (...) ganhei o não-nascido, ganhei o que está isento de envelhecimento e
doença, ganhei a não-morte, ganhei o que está isento de tristeza e impurezas, ganhei a
suprema cessação dos liames isto é, o Nirvana. O conhecimento e visão surgiram
em mim de que inabalável é para mim a liberdade, que este é o último nascimento, que
não há mais um renovado vir-a-ser.
(Majjhima Nikâya, Sutta 26)
A outra versão é a mais popular, a mais repetida nas escrituras, porque todos aqueles
discípulos que se iluminaram também, usaram das mesmas palavras. As suas últimas frases
dizem:
(...) Com a mente assim composta, de todo purificada, inteiramente
clarificada, sem mácula nem eiva, crescida maleável e destra, firme e invulnerável, eu
dirigi minha mente ao conhecimento da destruição dos cancros (morais). Eu entendi conforme a
realidade, de que: isto é sofrimento, isto é a origem do sofrimento, isto é a
cessação do sofrimento, isto é o caminho que leva à cessação do sofrimento. Eu
entendi conforme a realidade, de que: estes são os cancros (morais), isto é a origem dos cancros,
isto é a cessação dos cancros, isto é o caminho que leva à cessação dos cancros.
Quando eu assim soube, assim vi, minha mente foi emancipada do cancro dos
prazeres-sensuais, foi emancipada do cancro do vir-a-ser e foi emancipada do cancro da
ignorância. Em liberdade, o conhecimento veio a ser de que eu estava emancipado, e eu
compreendi: destruído está o nascimento, levado a termo está a divina vida, feito está
o que havia para ser feito, não há mais disto para vir a acontecer.
(Majjhima Nikâya, Sutta 36 MN, Sutta 22)

Templo de Mahâbodhi (Bodh Gayâ, Bihar, Índia)
Iluminado, Buda então levantou-se, encaminhou-se ao longo do rio e num outro lugar, escolhendo uma árvore,
ficou lá sentado por mais sete dias, gozando as delícias da completa libertação. Buda haveria ainda de repetir este
deslocamento de sete dias cada, mais duas vezes. Finalmente, após ter aceito como seus discípulos leigos dois comerciantes
que o alimentaram2, ele encaminhou-se a um dos lugares anteriores, onde ficou sentado, de pernas cruzadas,
em profunda contemplação. Após algum tempo, ele emergiu daquele profundo estado de meditação em que esteve
mergulhado. E, quando voltou a si, uma dúvida perpassou-lhe na mente: ele acabara de
descobrir algo muito profundo, complexo, difícil de compreender; ele contaria isto a
alguém? Haveria alguém que pudesse entendê-lo?
À medida que ele assim ponderava, sua mente inclinou-se para indiferença, para pouco esforço e não no sentido de ensinar
o Darma. Narra o relato canônico que o deus Brahmâ Sahampati teria ficado preocupado ao tomar conhecimento com a sua mente
do arrazoado na mente do Afortunado, temendo que o mundo ficasse perdido e destruído se a mente do Afortunado continuasse
a se inclinar no sentido de não ensinar o Darma. Então ele teria descido de sua esfera vindo à presença do Afortunado e, após muita
persistência, o teria convencido a mudar de idéia. Nos pensamentos que Buda teve na
seqüência, ele faz uso de uma metáfora e uma analogia que são verdadeiras jóias de sabedoria:
(...) Existem, portanto, seres com pouca poeira nos olhos que, por não ouvir o Darma
(Ensinamento), decaem; estes tornar-se-ão conhecedores da verdade.
Aqui está bem claro no que tange, pelo menos, a chamada salvação final ou Nirvana,
que este não estaria ao alcance de qualquer um. O Buda deixou isto claro em várias
ocasiões conforme veremos mais adiante. Num outro trecho ele diz o seguinte:
6. Buda iluminou-se numa idade bastante jovem tinha trinta e cinco
anos. Na época, na Índia, isto era adolescência na via espiritual, de maneira que
custou, a muita gente, no início, acreditar neste fato. Quando, pouco depois da sua
Iluminação, o Buda se encontrou com o rei de Magadha e este lhe expressou sua
admiração pela juventude de Buda, o Mestre lhe disse: Majestade, nesta vida quatro
coisas jovens não devem ser negligenciadas nem menosprezadas. Quais quatro? Um incêndio
jovem, uma jovem serpente, um príncipe jovem e um sramana jovem.
Todo tipo de pessoa vinha a conversar com Buda, de todas as camadas sociais; e ele
atendia, a todos, com paciência. Algumas dessas pessoas queriam saber: era ele um
onisciente? era ele um salvador? Buda deu duas opiniões a respeito uma, na
qualidade de Buda; outra, na qualidade da função que ele tem neste mundo. Quanto à
primeira, Buda disse que nesta vida, na Natureza, existem princípios que pertencem à lei
natural; o Buda descobre estes princípios e os explana para outros. O processo de
Iluminação abrange e é paralelo ao processo de descobrimento. Com relação a três
destes princípios, que se chamam Os três fatos básicos da existência,
que rege toda a existência, Buda assim se expressou:
Isto significa que a vida seja um processo dinâmico em constante mudança, e não há
nele pelo menos não se enxerga, não se vê e não se pode provar que há nele
algo fixo e imutável, e isto está em concordância com as Ciências modernas,
principalmente a Física Molecular.7
Com relação ao segundo ponto, que responde diretamente à indagação de ele ser um
salvador ou não, vou narrar resumidamente um trecho de um diálogo que ele travou, um dia, com
um cidadão.
Imagina, agora, uma outra pessoa, nas mesmas condições, munido da mesma instrução, chega direitinho na cidade. Como se explica isto: temos aqui um exímio conhecedor das vias que levam à cidade, e uma descrição tão perfeita e detalhada, e, no entanto, um acha seu caminho e o outro não acha? O brâmane levanta os ombros, O que eu posso fazer, Senhor; eu só posso dar explicação, depende da própria pessoa achar seu caminho à cidade. Da mesma maneira, ó brâmane, responde o Buda eu sou apenas um mostrador de caminho; depende de cada um saber alcançar o objetivo.
7.a Buda amiúde censurava certos tipos de instrutores cujas palavras eram ocas
embora, às vezes, tivessem um discurso brilhante e atraente; ou que pareciam falar de
coisas substanciais, mas, falavam apenas com base em conhecimento intelectual e não
porque tinham praticado a palavra falada. Outras vezes ele censurava pessoas não
necessariamente instrutores que se prontificavam a ajudar outros, a ensiná-los sem
que antes cuidassem de sua própria instrução, atingindo certos níveis espirituais, que
lhes permitisse ter uma base sólida para instruir os outros. A este respeito vou ler
três versículos do Dhammapada.
Que alguém estabeleça primeiramente a si próprio no que é correto,
E então os outros instrua. (Assim) fazendo, o sábio não se corromperá.
(Dhp 158)
7.b Outra coisa que o Buda mencionou é com relação à ajuda mútua; ele disse que nunca
uma pessoa poderia ajudar uma outra a partir de uma mesma posição, ou uma posição
inferior. Para poder ajudar, ele tem que estar numa posição espiritual superior. E assim
ele se expressou:
Que alguém não domado, não disciplinado e não liberto completamente venha, ele
próprio, domar, disciplinar e tornar completamente liberto um outro , esta
situação, por certo, não é encontrada. Mas, que alguém domado, disciplinado e
completamente liberto venha, ele próprio, domar, disciplinar e tornar completamente
liberto um outro , esta situação, por certo, é encontrada.
7.c Outro assunto de que o Buda falou muito e se constitui num ponto importante no budismo,
é a amizade. Tanto o instrutor, que é considerado antes de mais nada um amigo, quanto
aquele companheiro de vida que está sempre pronto a auxiliar seu amigo, a ajudá-lo no
que for necessário todas estas pessoas eram chamadas e são ainda chamadas de
amável amigo ou amigo amado, em páli kalyâni-mitta.
Quando, certa vez, o seu famoso discípulo, Ânanda, disse ao Buda Senhor, a amizade
é uma parte importante do caminho, Buda protestou Não diga isto, Ânanda,
não diga isto, Ânanda! A amizade não é uma parte importante do caminho é o
caminho todo. Por isso, no decorrer de sua longa vida de iluminado quarenta e
cinco anos , o Buda freqüentemente se referiu a este tema de amizade, e nunca
cansou em aconselhar as pessoas para que tomassem muito cuidado ao fazer amizades na vida.
Vou ler para vocês mais alguns versículos do Dhammapada relacionados à amizade.
Não te associes às más companhias, não te associes aos vis homens;
Associa-te aos virtuosos amigos, associa-te aos melhores entre os homens.
(Dhp 78)
Se vós achardes um companheiro prudente
A se andar com ele, de boa conduta e inteligente ,
Sobrepujando todos os perigos
Andeis com ele alegres e refletivos.
(Dhp 328)
Agradáveis são os companheiros quando surge a ocasião;
Sendo mútua, agradável é a satisfação;
Bendito é no fim da vida o merecimento,
E bendito o abandono de todo o sofrimento.
(Dhp 331)
8.a Buda, como vimos, foi um homem que chegou à Iluminação por seus próprios
méritos. Ele teve que percorrer o caminho praticamente sozinho, e, para tanto, não
contou com nenhuma ajuda externa de qualquer espécie, seja humana seja divina; e tão
pouco as suas experiências interiores ele atribuiu, em momento nenhum, a uma possível
inspiração divina. Como resultado disso, é natural que o ensinamento dele esteja
imbuído deste espírito. No budismo, o empreendimento pessoal é altamente valorizado.
Talvez esta seja uma das razões porque, em certos países, ele tem sido bem recebido como
é o caso dos Estados Unidos, por exemplo, onde, como sabemos, o mito da pessoa que se faz
por si mesma, que tem sucesso na vida, é ainda forte.
Buda foi altamente prático, como se vê nos objetivos que escolhera quando era um
aprendiz na maneira como os executou e os praticou mostrando um senso agudo
de pragmatismo e prática. Certa vez, ele disse que o critério para o julgamento da
utilidade de um ensinamento, estava relacionado à praticabilidade deste, à sua eficácia
e à sua capacidade em dar frutos o quanto antes. A pessoa, independentemente do estágio
no qual esteja, mental, psicológico, espiritual , se estiver praticando a
contento, levando a coisa a sério, seguindo as instruções, haverá de obter algum
fruto; do contrário, algo estará errado com o ensinamento.
Certa vez, ele definiu seu próprio ensinamento da seguinte maneira:
Este ensinamento é visível nesta vida, intemporal, convida a vir e a
ver (isto é, ele é verificável); é conducente ao objetivo e experimentável,
individualmente, pelo inteligente.
8.b Outro traço que passou para o seu ensinamento, baseado na sua experiência
de aprendiz, diz respeito ao conhecimento. O critério para a validade de um conhecimento
é, exclusivamente, a experiência interior. Este critério, como sabemos, é também o
critério que as Ciências modernas adotam; porém, há uma diferença: na Ciência, a
experiência provém das percepções sensoriais, e, no budismo, existe mais um
componente, que são as percepções extra- ou supra-sensoriais. Uma parte dessas
percepções são, atualmente, objeto de investigação em Parapsicologia; mas, outras
são exclusivamente budistas e não são passíveis de estudo. Somente as pessoas que
estão perto do Nirvana podem experimentá-las e saber do que se trata.
Existe um trecho de um discurso de Buda que ficou famoso. Ele, certa vez, falando com
os cidadãos de uma cidadezinha, chamados Kâlâmas, disse o seguinte: Vós não deveis
aceitar nada por ouvir falar, nem porque é tradicional, tampouco porque está nas
escrituras; nem porque veio de alguma autoridade, ou porque alguma pessoa honrada o falou,
e tampouco porque o Mestre o disse. Vós deveis aceitar tão somente aquilo que vós
mesmos experimentam, descobrem, conhecem diretamente, de que a coisa é boa, é salutar,
é conducente ao bem-estar de vós e de outros, e leva à pacificação do coração.
Muitos estudiosos admiram estas palavras de Buda, porque, realmente, é um caso único
em toda a história, de um mestre dizer que não se deva aceitar suas palavras sem mais
nem menos, sem que primeiro sejam verificadas. Mas, há um pouco de precipitação por
parte deles é e não é assim, porque logo surge a pergunta: enquanto eu ainda
não tenha verificado, ou, se a verificação demorar muito tempo pode levar anos
ou mais uma vida , o que a pessoa deveria fazer, entrementes? Buda tem resposta para
isso: neste caso, a pessoa tem que dar um voto de confiança. Alguns traduzem isto por fé
o certo talvez fosse "fé-confiante"; mas, baseado em que se dá este voto de confiança? Baseado em
vários fatos: baseado, em primeiro lugar, na própria personalidade do Mestre, que deve
ser uma pessoa, antes de mais nada, altamente coerente que significa: o que ele
pensa isto ele fala, o que ele fala isto ele executa. Deve haver provas de que seu
ensinamento esteja dando frutos, esteja levando a algum lugar e, a prova melhor, é
verificar se existem pessoas que conseguiram alguma coisa.
8.c Vou, agora, falar de mais outro traço característico de Buda; os traços
que são peculiares ao Buda são muitos, mas, no contexto de um artigo, obviamente,
não se pode mencionar todos. Mas vou mencionar um que, pelo menos, para Buda e os
budistas tem uma relevância, uma importância muito grande, porque, de acordo com Buda, o
mal da humanidade esta ligado a este fato. Vou chamar o assunto, o tema de
especulações.
Buda tinha uma atitude de completo mutismo diante de certos assuntos, em relação a
certos temas, com o que lhe valeu o apelido de Buda, o silencioso. A
especulação é, digamos assim, uma fraqueza generalizada da humanidade; está no nosso
sangue, faz parte da maioria das pessoas, senão de todas, e, se observamos nossas
conversas diárias em círculos de amigos e outros, nós verificaremos com facilidade que
boa parte dessas conversas são meras especulações. Nós opinamos sobre todos os
assuntos, discutimos acerca de tudo, com a segurança daquele que sabe do que fala,
quando, na verdade, não temos nenhuma base ou dados suficientes para formar uma opinião
a respeito.
Mas, isto é, por assim dizer, conversas menores muitas delas, talvez,
inofensivas; mas nem sempre, porque sabemos que muitas delas levam a querelas entre as
pessoas e até a assassinatos. No entanto, o que mais preocupou o Buda na ocasião, eram
as conversas de alto nível as filosóficas e religiosas. Naquela época, como
acontece também agora, discutia-se tudo: discutia-se, por exemplo, se o universo era
finito ou infinito; discutia-se sobre Deus e deuses; sobre se o destino do homem era
previamente traçado; sobre a alma e o corpo; sobre o que aconteceria após a morte; e
mais sobre uma infinidade de assuntos afins. O Mestre dizia ter o homem um problema diante
de si problema muito sério, existencial, que envolve sua sobrevivência. Ele
deveria dar toda sua atenção a este assunto, deveria se concentrar nisto, procurar
caminhos e soluções despendendo energia nesta direção. Ao invés disto, a pessoa trata
de outros assuntos que não tem nada a ver com seu problema básico, dispersa suas
atenções, despende energia à toa e poderíamos acrescentar e dizer: gasta
recursos, também, em programas e obras duvidosas, enquanto dezenas de nações estão sem
recursos para poder resolver seus problemas econômicos e sociais, e boa parte da
humanidade está passando fome. É como aquela pessoa enferma que, ao invés de procurar
um médico para se curar, decide se distrair o máximo possível com o fito de se esquecer
da enfermidade.
Sobre este assunto fazer o que é prescindível e imprescindível, o que é
útil e inútil alguns instrutores de meditação budista gostam de contar uma
anedota originária da Índia:
Buda via, nestes temas, um grande perigo; porque, em grau menor, como já mencionei,
sendo temas para os quais não há respostas definitivas, satisfatórias para todo mundo,
dá ensejo a divergências de opiniões. Divergências de opinião, quando defendidas com
paixão, com todo o ardor, levam para sentimentos de inimizade, a ofensas mútuas, brigas
e querelas, e, em grau maior, para guerra entre as nações. A este respeito, O Mestre,
certa vez, contou uma história alegórica.
Daí a pouco, não tardou muito, e um cego chamava ao outro de mentiroso, que não era aquilo que ele pensava; aí, um terceiro entrou na briga e, em pouco tempo, formou-se uma confusão, todos eles se acusando e se ofendendo mutuamente, enquanto o rei, assistindo a todo, ria e se divertia.
E o Buda concluiu: Os seres humanos são quais estes cegos: eles tateiam e
enxergam uma parte da realidade, e pensam estar vendo a realidade toda e estão prontos a
defendê-la a todo custo.
A humanidade está cansada de ver guerras ideológicas de todo tipo. Já assistiu a
muitas guerras feitas em nome de um ideal, de um conceito sublime como, por exemplo, o
Deus não faz muito tempo que tivemos uma destas, no Golfo Pérsico, como sabemos. Afora isso, existem
alguns assuntos, algumas idéias, aparentemente inofensivas, mas que, a longo prazo, podem
culminar numa tragédia humana. E tivemos uma no século 20. Fala-se
muito na Segunda Guerra Mundial; houve o diabólico plano racial de Hitler, que queria
livrar o mundo das raças impuras. Mas, a idéia não foi dele próprio: muito antes dele
nascer, estas idéias raciais já circulavam pela Europa, em panfletos, livros,
conferências. E, quando Hitler começou a se fortalecer politicamente, ele já encontrou
a plataforma racial pronta, preparada pelos filósofos e cientistas alemães e
aguardava pelo executor. Afora isso, nós já sabemos daquelas experiências científicas
nas quais são usados seres humanos como cobaias. Pouca gente sabe que houve antecedentes
na antiga Índia. No tempo de Buda, por exemplo, havia um filósofo e cientista,
Potthapâda era seu nome, e é considerado um dos pioneiros em experimentações
científicas na antiga Índia. Em certa época, quando fazia experiências relacionadas à
alma e ao corpo, ele queria saber se realmente uma alma se desprendia do corpo
, uma das experiências que ele executou foi pegar um escravo, enfiá-lo dentro de
um caldeirão cheio de óleo fervente e espreitar, de perto, para ver se no ato da
expiração do pobre homem conseguiria observar o desprendimento de alguma alma do corpo.
Por várias vezes, o Buda justificou seu silêncio. Num dos diálogos mais bonitos e
mais inspiradores, ele usa uma metáfora que, talvez, seja a mais popular e a mais
conhecida dele. Vejamos os antecedentes e trechos deste diálogo:
As explicações que o Buda dá, a seguir, sobre o por quê ele evita o exame das
teorias especulativas, fazem o Mâlunkyâputta entender o equívoco em que incorrera e
deixam-no, de todo, satisfeito.]
Mâlunkyâputta, aquele que dissesse assim: Eu não levarei a vida divina sob (a
orientação) do Mestre enquanto o Mestre não vem expor-me se o mundo é eterno ou se o
mundo não é eterno... [etc., até] se o Tathâgata nem existe nem não existe
após a morte8 , esta pessoa teria seu tempo (de vida) findado
enquanto, isto, ainda permaneceria não exposto pelo Tathâgata.
É como se um homem fosse acertado por uma flecha espessamente untada com veneno, e
seus amigos e colegas, conhecidos e parentes, providenciassem um médico e cirurgião, mas
o ferido dissesse assim: Eu não extrairei esta flecha enquanto eu não souber do
homem que me feriu: se é um nobre-guerreiro, um religioso, um homem do povo ou um
hilota (...) seu nome e linhagem (...) se alto, baixo ou de estatura mediana (...) se de tez
escura, marrom ou clara (...) se é de tal e tal aldeia, vila-mercado ou cidade-fortaleza.
Eu não extrairei esta flecha enquanto eu não souber do arco (...) da corda do arco (...)
da haste da flecha (...) das plumas da haste... etc." Esta pessoa teria seu tempo (de
vida) findado antes mesmo que isto se lhe tornasse conhecido (...)
Ó Mâlunkyâputta, enquanto houver o ponto de vista: O mundo é eterno,
não existirá o viver na vida divina , assim não! Enquanto houver o ponto de
vista: O mundo não é eterno... [etc., até] O Tathâgata nem
existe nem não existe após a morte, não existirá o viver na vida divina ,
assim não! Enquanto estão havendo estes pontos de vista, o que existe sim é nascimento,
existe velhice, existe morte, existem mágoa, lamentação, dor, angústia e desespero
cuja derribada eu dou a conhecer nesta mesma existência.
Conseqüentemente, Mâlunkyâputta, tende em mente o que não tem sido exposto por mim
como não exposto, e tende em mente o que tem sido exposto por mim como exposto. E o que
não tem sido exposto por mim? O mundo é eterno não tem sido exposto por
mim; O mundo não é eterno, [etc...] não tem sido exposto por mim. E por
quê isto não tem sido exposto por mim? Porque isto não está vinculado ao bem-estar,
isto não é o ponto-de-partida para a divina vida, isto não conduz ao desencanto (pela
vida mundana), à ausência de paixão, à cessação (do sofrimento), ao apaziguamento,
ao conhecimento supremo, não conduz à Iluminação e ao Nirvana. E o que tem sido
exposto por mim? Tem sido exposto: isto é sofrimento; isto é a origem
do sofrimento; isto é a cessação do sofrimento; isto é a via
que leva à cessação do sofrimento. E por quê isto tem sido exposto por mim?
Porque isto está vinculado ao bem-estar, isto é ponto-de-partida para a divina vida,
isto conduz ao desencanto (pela vida mundana), à ausência de paixão, à cessação (do
sofrimento), ao apaziguamento, ao conhecimento supremo, à Iluminação e ao Nirvana. Por
este motivo isto tem sido exposto por mim.
9.a Vamos descrever agora, acompanhada de exemplos, a maneira do
Buda abordar os temas ou as pessoas, principalmente os leigos. Uma delas, já vimos, é quando ele faz uma
contra-pergunta e, com isso, obriga o próprio inquiridor a responder. Vou dar um exemplo,
porque trata-se, também, de um assunto que, muitas vezes, nos diz respeito.
Freqüentemente faz-se a pergunta: Deve uma pessoa ser sempre franca? Deve ele dizer
sempre o que pensa, em qualquer circunstância, a qualquer pessoa? Eu já vi pessoas nesta
vida, conheci pessoas na vida e eu sou uma delas que perderam amizades por
causa de uma franqueza irrestrita e não-controlada. Buda disse certa vez que uma verdade
dita em tempo inoportuno é pior do que uma mentira. O episódio que contarei é,
resumidamente, o seguinte:
Buda foi tomar, um dia, sua refeição na casa de um
príncipe, a convite deste; após a refeição, o príncipe sentado ao lado dele e
segurando uma criança no colo, perguntou ao Buda se ele falava, às vezes, palavras
desagradáveis e desaprazíveis aos seus discípulos. Buda respondeu afirmativamente e, por
sua vez, indagou do príncipe: Suponha que esta criança, que está no seu colo,
enquanto brinca, venha a pôr uma pedra na boca; o que você faria? E o príncipe
respondeu: Sem titubear, seguraria, com uma mão, sua cabeça enquanto, com a outra,
enfiaria os dedos na sua garganta e tiraria à força essa pedra, nem que para isso fosse
necessário derramar-lhe sangue. E por quê eu faria isto? Porque é meu filho, porque o
amo, porque lhe tenho paixão. Da mesma maneira, responde Buda, eu
também, às vezes, posso falar palavras desagradáveis, desaprazíveis, quando há
necessidade para tal e por compaixão pelos meus discípulos.
De toda essa conversa, vou destacar, como essencial, dois pontos: De acordo com o
Mestre, uma fala que é verdadeira, real, útil, mas desagradável e desaprazível, o
Mestre sabe o tempo oportuno para proferí-la. Fala que é verdadeira, real, útil, mas
também prazerosa e agradável, disto também o Mestre sabe o tempo oportuno para
proferí-la.
Praticamente, a única ocasião em que o Buda se mostrava "durão" e rigoroso, falando palavras um tanto desagradáveis, era quando algum dos seus discípulos destorcia, deturpava suas palavras, seus ensinamentos — coisa que Buda não admitia de maneira nenhuma. Pelas suas próprias palavras, isto o deixava "desgostoso, aborrecido". Ele também previa acúmulo de deméritos e possível futuro infeliz para o envolvido.9
9.b Podemos dizer que, de maneira geral, tanto o Buda como seus discípulos iluminados, os Arahats, adotavam dois distintos métodos de abordagem: o “semi-racional” e o “racional”. No primeiro, o Buda não opunha uma resistência aberta e direta aos costumes e hábitos de seu interlocutor — discípulo ou não. Em se tratando de uma pessoa que seguia os costumes ou ritos religiosos de seus antepassados, por exemplo, Buda não os rejeitava, mas os transformava, dando-lhes um cunho moral mais afim com seu próprio ensinamento ou uma forma universal aceitável a todos os principais ensinamentos. Assim, se o dono-de-casa em questão mandava executar ritual sacrifical no qual abatiam-se animais, Buda lhe dizia que este não era o sacrifício correto no Caminho dos Nobres. Isto despertava a curiosidade do interlocutor que pedia ao Buda explicar-lhe como seria o sacrifício correto. Ele recebia então a descrição de um sacrifício que simbolicamente substituía o abate de animais por outro ato.10 Isto deixava o leigo completamente contente: de um lado, não foi solicitado a abandonar seus costumes ancestrais; por outro, não mais contribuirá para o exercício de um ato violento, com o que ele ganhará méritos.
O segundo método subdivide-se em racional suave ou moderado e em racional direto ou de choque. No primeiro caso, este emprega-se geralmente com leigos que estejam num nível espiritual razoavelmente bom ou quando se trata de um discípulo muito especial, como no exemplo que damos a seguir:
“Chefe de família, há cinco coisas desejáveis, prazerosas e agradáveis que são raras no mundo. Quais são estas cinco? Longevidade, beleza, felicidade, fama e (renascimento num) céu. Mas eu não ensino, chefe de família, que estas cinco coisas devam ser obtidas por meio de reza ou por votos. Se alguém pudesse obtê-las por reza ou votos, quem não o faria?
Para um nobre discípulo, ó chefe de família, que desejasse ter uma longa vida, não lhe é condizente que venha ele a rezar por longevidade ou se deleite em fazê-lo. Antes, ele deveria seguir um caminho de vida que fosse conducente à longevidade. Seguindo tal caminho, ele obterá longevidade, seja esta divina ou humana.
Para um nobre discípulo, ó chefe de família, que deseja ter beleza… felicidade… fama… (renascimento num) céu, não lhe é condizente que venha ele a rezar por eles ou se deleite em fazê-lo. Antes, ele deveria seguir um caminho de vida que fosse conducente à beleza… à felicidade… à fama… ao (renascimento num) céu. Seguindo tal caminho, ele obterá beleza, felicidade, fama e (renascimento num) céu.
O outro exemplo é o método racional direto, a maneira direta dele abordar as pessoas quando ele sente que a
coisa já está madura e pode colher o fruto prontamente. Um exemplo: Um dia, um grupo de
dez príncipes decidem fazer piquenique e se divertir num bosque, que, àquela época,
chamavam-se bosques-dos-prazeres. Todos possuíam esposas, menos um; por isso,
eles contrataram os serviços de uma cortesão profissional. Enquanto se divertiam no
bosque, em dado momento, aproveitando o cochilo, a cortesão recolhe os pertences mais
valiosos e foge. Os príncipes, dando-se conta disso, saem no encalço dela. Enquanto
procuram por ela no bosque, avistam um asceta sentado ao pé de uma árvore;
aproximando-se dele, indagam se o mesmo havia visto uma tal e tal mulher e lhe explicam
tratar-se de uma cortesão que lhes havia furtado os pertences. Então Buda pergunta:
Jovens, o que vós pensais ser a coisa mais importante e valiosa nesta vida: sair à
procura de uma cortesão ou sair à procura de si próprio? Passado o primeiro
espanto, os príncipes responderam que, naturalmente, sair à procura de si próprio era
mais valioso e importante. E o Buda disse-lhes: Então, jovens, sentai-vos à minha
frente que eu vos contarei como é que no caminho dos nobres um homem sai à procura de si
próprio. Quando terminou a exposição, a população da Ordem budista tinha
aumentado em dez homens.
Não podemos deixar de mencionar um outro exemplo que envolve uma das discípulas religiosas (bikshuni) mais famosas de Buda, Dhammadinnâ.12 Certa vez, quando ela se encaminhava para o vilarejo próximo para sua ronda de mendicância matinal, avistou um homem que saía do rio, molhado. Provocadoramente indagou do mesmo o que ele fazia, recebendo como resposta a explicação de que acabara de efetuar a sagrada ablução diária; questionado por que ele a fazia, respondeu: “Venerável Senhora, nós fazemos ablução diária para purificar nossos corações.” E ela arremeteu: “Se ablução na água pudesse purificar os corações, os seres mais puros neste mundo seriam… os peixes.” Com isto deu-se um estalo na mente do homem, seus olhos abriram-se para a realidade e ele estava agora apto a entender a mensagem do Darma.
9.c Uma característica notável de Buda era sua ironia, da qual se valia freqüentemente para
contradizer seu interlocutor. Um método muito usado por Sócrates, também. Um dia, ele
recebe a visita de um jovem brâmane. Ele pergunta: Jovem, o que de bom teu mestre
ensina? O jovem responde: Ele ensina sobre o homem perfeito. O que
vem a ser o homem perfeito de acordo com teu mestre? indaga o Buda. De acordo
com o meu mestre, o homem perfeito é aquele homem puro que não tem relações sexuais,
é passivo, não alimenta pensamentos inimicais contra terceiros, não briga com ninguém,
não faz mal a ninguém, não mata seres vivos, se contenta com pouco... (e mais algumas
qualificações). Então Buda responde: Neste caso, jovem, o homem perfeito do
teu mestre é a criança de colo, ainda em estágio de amamentação: ela é pura, não
tem relações sexuais, é passiva, não tem pensamentos inimicais contra terceiros,
(etc., repetindo todas as qualificações antes mencionadas.).
Mas Buda não usava a ironia para degradar ou ofender outros; ele a usava como primeiro
passo para a derrubada de uma tese, apresentando, em seguida uma outra tese que era, a seu
ver, superior. É o que acontece aqui também.
Em outra ocasião, um jovem brâmane foi ver o Buda e encetou com ele uma conversação; no decorrer desta o jovem gabou-se da sua condição social bramânica: “Somos herdeiros do Grande Brahmâ, fomos criados pela boca do Grande Brahmâ…”, etc. Buda rebateu ironicamente esta pretensão, dizendo entre outras coisas: “Que nós saibamos, tua mãe tem funções femininas parecidas às outras mulheres; periodicamente, desponta nela o corrimento do fluido vermelho (mestruação), e ela dá à luz pelo útero… Agora, dizer que alguém proveio pela boca de Brahmâ, seria perpetrar um insulto e ultraje ao mesmo [pela identificação do útero com a boca do deus]”.
10. Como fecho do nosso ensaio, leiamos um perfil moral de Buda traçado pelos
seus conterrâneos. O Buda disse que os homens comuns conheciam-no por estas
qualidades menores, mas que ele tinha qualidades infinitamente superiores a estas. Vamos
ouvir estas qualidades menores.
Tendo abandonado a tomada daquilo que não é dado, o sramana Gotama é um abstinente
da tomada daquilo que não é dado; tomando somente aquilo que é dado, aguarda pelo
donativo. Não cometendo nenhum furto, ele vive como alguém cujo ser é puro.
Tendo renunciado ao mundo e se tornado um seguidor da vida divina, o sramana Gotama
vive afastado do que é mundano e abstém-se dos prazeres sensuais.
Tendo abandonado a fala mentirosa, ele é um abstinente da fala mentirosa; ele é
veraz, fidedigno, firme, digno de confiança e não é embusteiro do mundo.
Tendo abandonado a fala caluniosa, é ele um abstinente de fala caluniosa; tendo ouvido
(algo) aqui o não relata acolá com o fito de causar dissensão entre os de cá, ou tendo
ouvido (algo) acolá o não relata aqui com o fito de causar dissensão entre os de lá;
desta maneira ele é um conciliador dos divididos, ou um encorajador dos unidos. Ele acha
prazer na harmonia, deleita-se na harmonia, regozija-se na harmonia e torna-se um
enunciador de fala promovedora de harmonia.
Tendo abandonado a fala rude, ele é um abstinente de fala rude; justamente aquela fala
que é imaculada, agradável ou ouvido, afável, que toca o coração, polida, aprazível
e encantadora a muita gente , de tal tipo de fala torna-se ele um enunciador.
Tendo abandonado a tagarelice frívola, ele é um abstinente de tagarelice frívola;
ele fala no tempo apropriado, fala daquilo que é real, fala do que tem sentido, fala do
Darma (lei natural), fala dos regulamentos disciplinares; em tempo oportuno ele pronuncia
palavras (que valem) entesourar, bem-fundamentadas, circunscritas e proveitosas.
(Anguttara Nikâya V.205 [X No.99])
Disse o Buda: Assim como o vasto oceano é impregnado de um só sabor o
sabor do sal, assim também este Darma (Ensinamento) está impregnado de um só sabor
o sabor da liberdade.
* * *
1. Este ensaio baseiou-se na transcrição
de gravação feita durante palestra proferida na ASSOCIAÇÃO PALAS ATHENA, SP,
em 25 de maio de 1985, por ocasião do lançamento do livro A Senda da Virtude
Dhammapada. O texto foi revisado e nova matéria acrescentada. 2. Os comerciantes Tapussa e Bhallika estavam passando nas cercanias com sua caravana de mercadorias,
quando um deva (ser radiante que reside numa esfera celestial), que era seu parente, incitou-os a servir com alimento o Afortunado, dizendo-lhes que este acabara de se iluminar e que servi-lo seria para eles uma bênção e felicidade por muito tempo. Quando o Mestre acabou de se servir do alimento oferecido, os dois comerciantes disseram-lhe: “Nós, venerável Senhor, somos aqueles que vão ao Afortunado como refúgio e também ao dhamma; que o Afortunado nos aceite como discípulos leigos idos ao refúgio, a partir deste dia e pelo resto da vida.”
Assim, eles tornaram-se os primeiros discípulos leigos no mundo, usando a fórmula de duas-palavras, isto é, se dirigiram ao bhagavâ (Afortunado e não buddha) e ao dhamma, já que o Sangha (Ordem) ainda não existia. 3. Estes pontos mencionados por Buda, fazem parte do Darma (lei natural) por ele descoberto e sua
compreensão total e absoluta só é dada aos que atingem certos estágios espirituais no caminho do desenvolvimento mental. 4. Buda ofereceu dois ideais de felicidade: há a via de renúncia do bikshu/bikshuni
(monge/monja-mendicante) em busca de completa paz e quietude (nirvana), e há aquela do leigo
que fez um compromisso com a vida. Enquanto o recluso, que busca a libertação final do
sofrimento, obterá paz interna, o objetivo do leigo probo é o viver harmonioso nesta
mesma vida e a esperança de ter um renascimento mais favorável como ser humano ou
renascer numa esfera superior, como a dos devas.
Veja na secção 6, último parágrafo e Nota 9.
5. Literalmente: assim-ido ou assim-vindo; é como o Buda se utodenominava. 6. anattâ, literalmente: não si-mesmo; quando se refere à
personalidade: não-eu, impessoalidade. 7. Para maiores detalhes sobre os ensinamentos básicos de Buda, veja parte A do ensaio “A Roda da Vida”,
publicação do CEB. 8. As dez perguntas especulativas que se faziam à época eram: (i) é o mundo
eterno? ou (ii) é o mundo não-eterno (efêmero)?; (iii) é o mundo finito? ou (iv) é o
mundo infinito?; (v) é o princípio vital (alma?) o mesmo que o corpo (físico)? ou (vi)
é o princípio vital uma coisa e o corpo outra?; (vii) existe o Tathâgata após a
morte? ou (viii) o Tathâgata não existe após a morte? ou (ix) o Tathâgata,
ao mesmo tempo, existe e não existe após a morte? ou (x) o Tathâgata nem existe
nem não existe após a morte? (por mundo, deve-se entender o universo). 9. Talvez seja oportuno mencionar aqui um ato demeritório e insultuoso que alguns cometem quando atribuem ao Buda a declaração de que todos (religiosos, como leigos) podem se iluminar. A posição oficial de todas as escolas e seitas budistas atualmente é a de que a Iluminação esteja ao alcance de todos. Esta não era a posição original do Theravâda antigamente, que se conformava com as evidências encontradas no cânone, do qual apresentamos acima alguns exemplos. No decorrer do tempo, porém, por razões que não vamos expor aqui, seu pensamento a respeito deste assunto mudou, vindo alinhar-se à posição das outras escolas. Poderíamos considerar isto uma mudança normal, e a posição atual, como um processo natural, considerando a condição e natureza humanas. Os seguidores budistas decidirão individualmente se aceitam ou não esta posição ou crença. O que não pode ser feito, porém, é atribuí-la ao Buda.
Seria de grande interesse para os budistas leigos saber o que Buda pensava a respeito da possibilidade de os leigos poderem atingir a Iluminação. Nós já vimos que, com relação aos religiosos, ele disse que uns podem e outros não; e com relação aos leigos? Uma resposta clara a esta indagação encontramos, entre outros, no Mahâvacchagotta Sutta (Majjhima Nikâya, Sutta 73). Ao ser inquirido pelo andarilho Vacchagotta, Buda responde que muitos dos seus discípulos, leigos e leigas, que vestem a túnica branca e levam uma vida de celibato (anâgârika), eles, com a destruição dos cinco grilhões inferiores, reaparecerão espontaneamente [em Esferas Puras], e lá eles atingirão o nirvana final sem que jamais tenham de retornar daquele mundo. Esta questão refere-se ao estágio de santidade conhecida como a de "não-retorno" (anâgâmin) (para maiores detalhes, veja verbetes Arahat e Grilhões no Glossário do livro Dhammapada, de nossa autoria e publicado pela Editora Palas Athena).
A uma outra pergunta com relação aos discípulos leigos/leigas que ainda gozavam dos prazeres sensuais, Buda responde dizendo que muitos deles que vestem a túnica branca, que levam a cabo suas instruções, respondem a seus conselhos e que superaram a dúvida — tornam-se livres de perplexidade, ganham intrepidez e viram independentes de outros no Ensino do Mestre. Em outros contextos, Buda explica que dependendo do estágio espiritual alcançado pelo discípulo leigo, este pode vir a (re)surgir, após a dissolução do corpo, numa das várias esferas superiores, indo desde a esfera mais baixa dos devas até a mais alta, a do deus Brahmâ.
A posição de Buda era inequívoca quanto a esta questão de iluminação: só tinha alguma chance de se iluminar nesta vida terrena o ser humano que abandonasse a vida de casa e abraçasse a vida de sem-lar, isto é, se tornasse um asceta; alguns leigos que atingissem um dado estágio espiritual elevado, poderiam ter esta possibilidade num futuro indefinido, numa outra esfera de vida que não neste nosso mundo; finalmente, para os outros leigos restava o consolo de poderem ressurgir numa outra esfera, ou neste mesmo mundo (o que é mais raro) em condições mais favoráveis do que as anteriores. 10. Para um exemplo clássico deste método, veja o sutra Sigalovâda Sutta “Conselhos ao Jovem Sigâla”, publicação do CEB e disponível na WEB.
11. Este método de choque, como sabemos, foi muito apreciado pelos mestres Zen em todas as épocas, que o empregaram nos seus koans.
12. Ela era possuída da dádiva do ensino, isto é, era proeminente na transmissão do Darma. Era ela esposa do Visâkha de Râjagaha e, quando ele tornou-se um anâgâmin (veja Nota 9), depois de ter ouvido o Buda discursar, ela deixou a vida caseira com o consentimento do marido. Ordenada, morou e praticou em solidão, atingindo, cedo, o estado de Arahat. Sempre que passava pela sua cidade natal, seu marido acorria ao seu encontro e lhe fazia à ex-esposa perguntas sobre o Darma, que ela respondia “tão facilmente quanto alguém que cortasse um caule de lótus com uma faca afiada.” Os diálogos entre os dois, conservados no Canône, é dos mais enlevados e interessantes para os leigos.
* * *
Nissim Cohen
(upâsaka Dhammasâri)
7/1/2001