CENTRO DE ESTUDOS BÚDICOS

Jacareí, SP


O DIÁLOGO COM OS KÂLÁMAS1

(Kâlâmasutta, Angutara Nikβya III.65 [i.188-93])


NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMÂSAMBUDDHASSA
Homenagem a Ele, ao Afortunado, ao Consumado, ao Perfeitamente Iluminado


Prefácio

O Diálogo com os Kâlámas é, sem dúvida alguma, um dos textos mais comentados, citados e apreciados do Cânone Páli. O apreço em questão provém, principalmente, da atitude de Buda tida como objetiva, "moderna" e apropriada a uma era científica como a nossa.

O Século VI-V a.C. testemunhou o início de um processo de transformação e renovação em todas as esferas de atividade humana — assim como haveria de ocorrer também na China e na Bacia Mediterrânea — e que, como tal, oferece aspectos análogos aos processos de mudança em fase de efetuação na nossa época. Muitas das doutrinas que nesse tempo surgiram no norte da Índia o foram em reação direta à religião bramânica dominante, a qual passava por uma fase de estagnação — reduzida que estava a um conjunto de rituais ocos e sem sentido espiritual — e não dispunha de meios para ir ao encontro dos anseios por conhecimentos mais profundos e esclarecedores dos fenômenos da vida.

Num dos seus discursos singelos e historicamente importantes, o Buda descreve, analisa e disseca 62 doutrinas as mais diferentes que circulavam na época; algumas dessas tiveram, e ainda têm, teorias correspondentes no mundo ocidental.

Não é de estranhar, pois, que diante de tal miríade de pontos de vista as pessoas viessem a ficar desnorteadas e perplexas. É nesse contexto que se desenrola a conversa entre um grupo de cidadãos e o Buda, o qual lhes propõe e lhes recomenda padrões de julgamento e critérios para um conhecimento e conduta de vida válidos. Não só esses critérios são admirados pelo que têm de objetivo e científico, mas também a atitude de Buda — que inclui seus próprios ensinamentos no rol das coisas a serem submetidas aos rigores do julgamento — é considerada pelos estudiosos como singular em toda a história, dentre os conhecidos e famosos líderes religiosos.

Uma outra coisa extraordinária na atitude de Buda, que não parece ter sido notada pelos estudiosos, são os quatro confortos, alcançados pelas pessoas de boa conduta, que ele enumera: adotando uma posição neutra, leva em consideração quatro diferentes crenças e não unicamente a budista.

Convém, aqui, ressaltar dois pontos: primeiro, em se tratando de leigos, o Buda reserva considerações mais profundas de ordem psico-filosófica para outras ocasiões e outros interlocutores; segundo, e conforme já enfatizado por ele mesmo em diversas ocasiões, uma coisa é recomendar e apontar o caminho, outra é dispor da capacidade e energias internas que habilitem o homem a trilhar esse caminho. Este mesmo texto testemunha a fraqueza humana, porque tem sido constantemente objeto de interpretações deturpadoras. Contribui para isso também o fato de traduções integrais deste texto serem raras e de difícil acesso aos leitores em geral — o que não lhes permite aquilatar sua verdadeira mensagem.

* * *


O Texto

1. Assim eu ouvi2. Em certa ocasião, o Mestre, enquanto perambulava entre os Kosalas com uma grande congregação de bikxus3, chegou a uma cidade-mercado dos Kâlámas de nome Kesaputta.

Ora, os Kâlámas de Kesaputta ouviram que o asceta Gotama, o filho dos Xáquias que se fôra embora da tribo dos Xáquias renunciando à vida caseira, havia alcançado Kesaputta.

E esta bela voz de reputação disseminou-se acerca do Gotama, o Afortunado, assim: Ele é deveras um Afortunado, um Arahat (Arhat) (Consumado) perfeitamente Iluminado, dotado de (boa) conduta e (elevado) conhecimento, um Bem-andante, conhecedor do mundo, incomparável condutor dos homens a serem domados, instrutor de devas e seres humanos, um Buda, um Afortunado. Ele torna conhecido este mundo(…) junto com os seres divinos e humanos, tendo-o conhecido por si mesmo e o experimentado por si mesmo. Ele ensina o Darma (Lei natural) que é belo no começo, belo no meio, belo no fim —, em seu significado e em seu atributo; ele demonstra em toda sua plenitude a divina vida altamente pura. Deveras, é bom se ter uma vista de semelhantes Arahats."

Então, os Kâlámas de Kesaputta foram até o Mestre. Tendo se aproximado dele, alguns deram-lhe as boas-vindas e sentaram-se a um lado; alguns cumprimentaram-se com o Mestre e, após terem trocado palavras amigáveis e de cortesia, sentaram-se à parte; outros estenderam as mãos juntadas em direção ao Mestre…; outros ainda declararam seu nome e ascendência…; e alguns, silenciosos, sentaram-se a uma distância respeitosa. Assim sentados, os Kâlámas de Kesaputta disseram isto ao Mestre:

2. — Venerável Senhor, há certos ascetas e brâmanes que vêm à Kesaputta. Eles aclaram e abrilhantam seu próprio pronunciamento; a doutrina dos outros, porém, eles a blasfemam, desdenham, menosprezam e despojam-na de suas asas. Ademais, venerável Senhor, outros ascetas e brâmanes vêm à Kesaputta; eles também [procedem da mesma maneira]. Então com relação a eles vem nos ocorrer justamente a dúvida, vem nos ocorrer a perplexidade: qual dentre esses veneráveis ascetas, por certo, fala a verdade, e qual deles mente?
— Sim, Kâlámas, é apropriado duvidardes, é apropriado ficardes perplexos; pois em matéria duvidosa a perplexidade surge.
Vós, Kâlámas, guiai-vos não por ouvir (dizer), não pela tradição, nem por suposição; não pelo legado das escrituras, nem devido à mera lógica ou com base em inferência; não pela consideração da peculiaridade, nem pela anuência à e compreensão de uma doutrina; não pela aparência de plausibilidade, nem por respeito a um asceta. Entretanto, quando vós, Kâlámas, souberdes por vós próprios: "Estas coisas são insalutares; estas coisas são condenáveis; estas coisas são censuradas pelo homem sensato e inteligente; estas coisas, empreendidas e consumadas, conduzem à perdição e ao sofrimento", então é que vós poderíeis rejeitá-las.

3. Agora, o que vós pensais, Kâlámas: surgindo a avidez dentro do homem, esta surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu prejuízo, Senhor.
— Mas, esse indivíduo feito ávido, dominado pela avidez e de mente empobrecida, ele também mata ser vivo, e apropria-se do que não lhe é dado, e vai à esposa de outro, e conta mentiras, e induz outrem a um comportamento semelhante — e isto vem contribuir para seu prejuízo e sofrimento por longo tempo.
— Assim é, Senhor.
— Agora, o que vós pensais Kâlámas: surgindo a maldade dentro do homem, esta surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu prejuízo, Senhor.
— Mas, esse indivíduo feito maldoso, dominado pela maldade e de mente empobrecida, ele também mata… — e isto vem contribuir para seu prejuízo e sofrimento por longo tempo.
— Assim é, Senhor.
— Agora, o que vós pensais, Kâlámas: surgindo a delusão dentro do homem, esta surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu prejuízo, Senhor.
— Mas, esse indivíduo iludido, dominado pela delusão e de mente empobrecida, ele também mata ser vivo, e apropria-se do que não lhe é dado, e vai à esposa de outro, e conta mentiras, e induz outrem a um comportamento semelhante — e isto vem contribuir para seu prejuízo e sofrimento por longo tempo.
— Assim é, Senhor.
— O que vós pensais, Kâlámas: são essas coisas salutares ou insalutares?
— Insalutares, Senhor.
— Condenáveis ou irrepreensíveis?
— Condenáveis, Senhor.
— Censuradas pelo homem sensato e inteligente ou louvadas por ele?
— Censuradas, Senhor.
— Empreendidas e consumadas, elas conduzem à perdição e ao sofrimento ou, neste caso, como vos parece?
— Empreendidas e consumadas, elas conduzem à perdição e ao sofrimento; assim nos parece neste caso, Senhor.
— Pois bem, Kâlámas, quanto a isto que dissemos: Vós, Kâlámas, guiai-vos não por ouvir (dizer), não pela tradição… —, quanto a isto que foi proferido, foi por esta razão que foi dito.

4. Kâlámas, guiai-vos não por ouvir (dizer), não pela tradição, nem por suposição; não pelo legado das escrituras, nem devido à mera lógica ou com base em inferência; não pela consideração da peculiaridade, nem pela anuência à e compreensão de uma doutrina; não pela aparência de plausibilidade, nem por respeito a um asceta. Entretanto, quando vós, Kâlámas, souberdes por vós próprios: "Estas coisas são salutares, estas coisas são irrepreensíveis, estas coisas são louvadas pelo homem sensato e inteligente, estas coisas empreendidas e consumadas conduzem ao benefício e à felicidade" — então, vós, Kâlámas, tomando-as a vosso encargo, nelas permanecei vivendo.

5. Agora, o que vós pensais, Kâlámas: surgindo o desprendimento dentro do homem, este surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu benefício, Senhor.
— Mas, esse indivíduo feito desprendido, não dominado pela avidez e de mente enriquecida, justamente não mata ser vivo, não se apropria do que não lhe é dado, não vai à esposa de outro, não conta mentiras, e também induz outrem a um comportamento semelhante — e isto vem contribuir para seu benefício e felicidade por longo tempo.
— Assim é, venerável Senhor.
— Agora, o que vós pensais, Kâlámas: surgindo a bondade dentro do homem, esta surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu benefício, venerável Senhor.
— Mas, esse indivíduo feito bondoso, não dominado pela maldade e de mente enriquecida, justamente não mata ser vivo… e também induz outrem a um comportamento semelhante — e isto vem contribuir para seu benefício e felicidade por longo tempo.
— Assim é, venerável Senhor.
— Agora, o que vós pensais, Kâlámas: surgindo o conhecimento fatual dentro do homem, este surge para seu benefício ou para seu prejuízo?
— Para seu benefício, venerável Senhor.
— Mas, esse indivíduo com conhecimento-consoante-realidade, não dominado pela delusão e de mente enriquecida, justamente não mata ser vivo, não se apropria do que não lhe é dado, não vai à esposa de outro, não conta mentiras, e também induz outrem a um comportamento semelhante — e isto vem contribuir para seu benefício e felicidade por longo tempo.
— Assim é, venerável Senhor.
— O que pensais, Kâlámas: são essas coisas salutares ou insalutares?
— Salutares, Senhor.
— Condenáveis ou irrepreensíveis?
— Irrepreensíveis, Senhor.
— Censuradas pelo homem sensato e inteligente ou louvadas por ele?
— Louvadas, Senhor.
— Empreendidas e consumadas conduzem à felicidade, ou, neste caso, como lhes parece?
— Empreendidas e consumadas, conduzem à felicidade; assim nos parece neste caso, Senhor.
— Pois bem, Kâlámas, quanto a isto que dissemos: Vós, Kâlámas, guiai-vos não por ouvir (dizer), não pela tradição… Entretanto, quando souberdes por vós próprios: "Essas coisas são salutares… essas coisas empreendidas e consumadas conduzem ao benefício e à felicidade — então tomando-as a vosso encargo, nelas permanecei vivendo."—, quanto a isto que foi proferido, foi por esta razão que foi dito.

6. Deveras, Kâlámas, aquele que é um nobre ouvinte4, que é assim carente de cobiça e malevolência, que não está desnorteado, mas é deliberativo e cônscio, este, com um coração imbuído de bondade-afetuosa… imbuído de compaixão… imbuído de regozijo solidário… com um coração imbuído de equanimidade5, detém-se permeando um quadrante (terrestre), então um segundo e assim um terceiro e um quarto. Desta maneira, acima, abaixo, transversalmente, em todas as direções e sob todas as circunstâncias, ele detém-se permeando o mundo inteiro com um coração imbuído de bondade-afetuosa… de compaixão… de regozijo solidário… de equanimidade — um coração vasto, engrandecido, incomensurável e ausente de ódio e de malevolência.

7. Deveras, Kâlámas, aquele que é um nobre ouvinte, e cujo coração é assim ausente de ódio, ausente de malevolência, imaculado e purificado —, por ele quatro confortos são alcançados nesta mesma existência:

"Se realmente existe um mundo além, se existe a fruição e resultado (recompensa) dos atos bem ou mal feitos, então eu, com a desintegração do corpo após a morte, emergirei no mundo celestial, no feliz destino." Este é o primeiro conforto por ele alcançado.

"Se realmente não existe um mundo além, se não existe a fruição e resultado dos atos bem ou mal feitos, não obstante, aqui e nesta mesma vida, eu mantenho a mim próprio livre de ódio e malevolência, livre de apuros e feliz." Este é o segundo conforto por ele alcançado.

"Se realmente algum mal é cometido (inadvertidamente) por mim enquanto atuando, contudo não tenciono o mal a ninguém. Deveras, não cometendo qualquer mau ato (intencionalmente), como é que o sofrimento irá estabelecer contato comigo?" Este é o terceiro conforto por ele alcançado.

"Se realmente mal nenhum é cometido por mim enquanto atuando, neste mesmo mundo eu me considero purificado em ambas as maneiras6." Este é o quarto conforto por ele alcançado.

Deveras, Kâlámas, aquele que é um nobre ouvinte, e cujo coração é assim ausente de ódio, ausente de malevolência, imaculado e purificado —, por ele quatro confortos são alcançados nesta mesma existência.

— Isto é assim mesmo, ó Afortunado; isto é assim mesmo, ó Bem-aventurado. [e eles repetem o que acaba de ser dito pelo Buda]. Esplêndido venerável Senhor![…] Nós, aqui, recorremos ao Afortunado como refúgio, e também ao Darma (Ensinamento) e à Comunidade. Que o venerável Afortunado tome como discípulos a nós, idos ao refúgio, a partir deste dia e enquanto a vida perdurar.

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Notas

1. Fonte: Anguttara Nikâya III.65, publicado pela Pali Text Society de Londres. O texto não possui título; este foi dado por nós.
Tradução revisada de artigo originalmente publicado na revista Thot, Nº 43, 1986 (publicação da Palas Athena).

2. A narração é tradicionalmente atribuída ao discípulo Ânanda.

3. Monge-mendicante budista.

4. A transmissão dos ensinamentos fazia-se, à época, oralmente. O nobre ouvinte era a pessoa atenciosa e diligente que, sentada ao pé do mestre, absorvia os ensinamentos e os tornava parte integrante de sua vida.

5. Estas são conhecidas como As Quatro Sublimes Estadas e constituem-se num dos exercícios meditativos tradicionais. Uma pessoa que pratica a meditação pode vir a experimentar uma expansão da sua consciência, e um contato direto com o mundo inteiro é sentido como sendo possível. No exercício aqui descrito, a mente é levada a funcionar aproximadamente da mesma maneira que um transmissor de rádio: radiações de bondade ou amizade, compaixão, regozijo solidário e equanimidade são transmitidos em todas as direções.

6. I.é. seja quando cometendo algum mau ato inadvertidamente ou quando não comete mau ato algum.

* * *


Tradução do original páli e Prefácio
Nissim Cohen
(upâsaka Dhammasâri)

4/11/1997


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DDC B.918.124