CENTRO DE ESTUDOS BÚDICOS

Jacareí, SP


OS MENSAGEIROS DO DESTINO


NAMO TASSA BHAGAVATO ARAHATO SAMMÂSAMBUDDHASSA
Homenagem a Ele, ao Afortunado, ao Consumado, ao Perfeitamente Iluminado


I — Introdução

Há alguns anos atrás, quando minha esposa e eu atravessávamos de carro a cidadezinha de Cunha, deparamos com uma figura extraordinária e das mais impressionantes de que temos lembrança em nossa vida. Era um ancião, certamente um centenário; tinha um rosto descomunalmente alongado e deformado: a bochecha de uma face estava repuxada e recobria parcialmente a outra, com o que o nariz comprido tinha estranha forma curvilínea; uma pequena fenda, deslocada do centro, fazia a vez da boca; duas escuras órbitas encravadas como que no centro de uma fronte altiva que carecia de qualquer indício de sobrancelhas; escassos cabelos esbranquiçados. Era de baixa estatura e magro; tinha uma das pernas pregadas à frente da outra, o que fazia com que ele andasse devagar e penosamente. Era uma aparição inesquecível e tocante, que mexeu com todo o nosso ser: acabávamos de avistar o primeiro mensageiro de Yama, o rei da Impermanência e Morte.

Premido pelos instintos naturais, herança de sua espécie; submetido a um contínuo processo de condicionamento, desde o berço, por seus semelhantes e pelo ambiente circundante; obcecado por visões deturpadas do mundo e dos fenômenos, originárias de fatores mentais insalutares e inábeis, age o homem no sentido de adquirir para si condições mínimas de segurança consideradas por ele imprescindíveis à sua sobrevivência. Paralelamente, impelido pelos seus desejos insaciáveis, persegue ele, ansioso e angustiado, miríades de objetivos que lhe garantirão, assim ele acredita, a tão almejada felicidade; e isto ele faz qual macaco a pular de galho em galho à cata de frutas que nunca o satisfazem.

Ao contrário do que muitos poderiam pensar, todos os homens, em maior ou menor grau, estão afetos a tal fenômeno; tampouco deve-se pensar estar o homem inclinado apenas aos prazeres sensuais e materiais. Isto porque, de um lado, o homem é acossado também por desejos cuja satisfação está focalizada em objetivos intelectuais e culturais, que passam a ser questionáveis a partir do momento em que estes adquirem pretensamente a tônica de espúrias atividades espirituais; de outro lado, existem os riscos inerentes às genuínas atividades espirituais que, se não vigiadas e controladas constantemente, podem facilmente descarrilar (Veja sobre este assunto a excelente análise do ex-Lama Chögyam Trungpa: “Spiritual Materialism”, Shambhala Press; “Além do Materialismo Espiritual”, Editora Pensamento).

Omisso quanto aos verdadeiros deveres que lhe cabe cumprir tanto em relação a si quanto em relação aos outros, negligente umas vezes, indolente outras, leva o homem uma existência à qual tenta imprimir uma fingida característica de eternidade. Enquanto tudo parece correr favoravelmente, o homem fica insensível ao verdadeiro processo vital e inconsciente do papel que nele deveria desempenhar. Na sua cegueira não enxerga ou, quando vê, não reconhece os avisos prévios que o “destino” lhe antepõe para alertá-lo e prevení-lo. Quando, porém, algo parece sair errado, ou a hora “fatal” parece estar próxima, o homem é tomado de pavor e, não raro, entra em pânico. Nessa hora, para ele aterradora, ele lança às vezes mão de todo tipo de artifício tentando ludibriar o destino e compactuar com a morte, no que, para sua desgraça, é auxiliado por algumas religiões que lhe acenam com a possibilidade de salvação à última hora, independentemente do tipo de vida que ele tenha levado anteriormente. Não obstante, a sabedoria popular, já de há muito, formulou a Verdade num adágio de alcance universal, pelo qual “de acordo com o que semeares, assim mesmo colherás”. Esta maneira de encarar as ações e suas retribuições faz parte também do autêntico ensinamento bíblico, conforme se pode atestar em inúmeros trechos, tais como Jo 4-8, Pr 11-18, 2o, Ep. Coríntios 9-6, Ga 6-7, etc. Diz o texto budista Dhammapada que esteja o homem onde estiver, ele não escapará da morte; tampouco deixará ele de colher os frutos das suas ações (carma), seja nesta vida, seja nas vindouras.

Desde a antiguidade, este assunto cativou a imaginação dos sábios, escritores e outros. Historicamente, o primeiro a tratar do tema foi o Buda. Pretendemos, inicialmente, apresentar um dos seus discursos (Sutra) a este respeito para, em seguida, mencionar resumidamente alguns outros paralelos ocidentais. Encontramos no Cânone Páli duas versões de um mesmo discurso ou, o que é mais provável, dois discursos proferidos em diferentes ocasiões. A diferença entre os dois discursos decorre do número de avisos prévios, isto é, dos mensageiros: num, estes são três e, no outro, são cinco. Os mensageiros aqui são claramente símbolos para diferentes situações humanas, conforme veremos adiante. Será apresentada a versão mais curta que foi traduzida do texto original em páli publicado pela “Pali Text Society” de Londres.

* * *


II — O Texto

OS MENSAGEIROS DE DEVA1
(Devadûta Vagga, Anguttara Nikâya, i.138)

1. Bikxus2, três são os mensageiros de deva. Quais três?
Aqui, bikxus, uma certa pessoa leva uma vida de má conduta no corpo, leva uma vida de má conduta na fala, leva uma vida de má conduta na mente. Tendo levado uma vida de má conduta em ação, tendo levado uma vida de má conduta em palavra, tendo levado uma vida de má conduta em pensamento, com a desagregação do corpo após a morte, ele surge no estado de perdição, na rota da miséria, na ruína, no Purgatório3. Então, bikxus, os guardiões do Purgatório, agarrando-o pelos braços de todos os lados, apresentam-no ao rei Yama:

“Este homem, ó majestade, foi irreverente com a mãe, irreverente com o pai, irreverente com os ascetas, irreverente com os brâmanes, e não foi honrador dos dignitários do clã. Que sua majestade lhe inflija uma punição.”

Então, bikxus, o rei Yama examina-o, perquire-o, e com ele entabula conversa no tocante ao primeiro mensageiro de deva: “Eh homem! Tu não viste o primeiro mensageiro de deva manifesto entre os seres humanos?”

E ele assim responde: “Não o vi, senhor.”

Então, bikxus, o rei Yama destarte lhe diz: “Oh homem! Não viste tu entre os seres humanos uma mulher ou um homem, octogenário ou nonagenário ou centenário, do tipo decrépito, arqueado qual empena de telhado, encurvado, apoiado num bastão, trêmulo enquanto anda, adoentado, de juventude passada, com dentes quebrados, de cabelos grisalhos, ou cortados, ou calvo, de rosto enrugado e o corpo coberto de nódoas?”
— Eu vi, senhor.
— Oh homem! A ti isto não ocorreu, inteligente e de idade bastante madura que és: ‘ Eu também estou deveras sujeito à velhice, não ultrapassei a velhice. Ora vamos! que eu faça o bem no corpo, na fala e na mente.’ ?”
— Não, senhor, eu não fui capaz. Fui negligente, senhor.
— Oh homem! Foi devido à negligência que tu não fizeste o bem em ação, palavra e pensamento. Eis que, ó homem, conforme tenha sido tua negligência, assim mesmo eles te farão. Ora, esta tua má ação não foi cometida pela mãe, não foi cometida pelo pai, não foi cometida pelo irmão, nem foi cometida pela irmã, tampouco foi ela cometida pelos amigos e colegas; não foi cometida por parentes ou compatriotas, nem foi cometida por devas, tampouco foi cometida por ascetas ou brâmanes. Mas sim por ti só foi perpetrada esta má ação, e justamente tu hás de experimentar-lhe os frutos.”

2. Então, bikxus, o rei Yama tendo-o examinado, o perquirido e com ele entabulado conversa no tocante ao primeiro mensageiro de deva, examina-o, perquire-o e com ele entabula conversa no tocante ao segundo mensageiro de deva: “Eh homem! Tu não viste o segundo mensageiro de deva manifesto entre os seres humanos?”
— Não o vi, senhor. — Oh homem! Não viste tu entre os seres humanos uma mulher ou um homem, adoentado, aflito, gravemente enfermo, atolado nos seus próprios excrementos e urina, e sendo levantado e posto na cama por uns e outros?”
— Eu vi, senhor. — Oh homem! A ti isto não ocorreu, inteligente e de idade bastante madura que és: ‘ Eu também estou deveras sujeito à doença, não ultrapassei a doença. Ora vamos! que eu faça o bem no corpo, na fala e na mente.’ ?”
— Não, senhor, eu não fui capaz. Fui negligente, senhor.
— Oh homem! Foi devido à negligência que tu não fizeste o bem em ação, palavra e pensamento. Eis que, ó homem, conforme tenha sido tua negligência, assim mesmo eles te farão. Ora, esta tua má ação não foi cometida pela mãe, não foi cometida pelo pai, não foi cometida pelo irmão, nem foi cometida pela irmã, tampouco foi ela cometida pelos amigos e colegas; não foi cometida por parentes ou compatriotas, nem foi cometida por devas, tampouco foi cometida por ascetas ou brâmanes. Mas sim por ti só foi perpetrada esta má ação, e justamente tu hás de experimentar-lhe os frutos.”

3. Então, bikxus, o rei Yama tendo-o examinado, o perquirido e com ele entabulado conversa no tocante ao segundo mensageiro de deva, examina-o, perquire-o e com ele entabula conversa no tocante ao terceiro mensageiro de deva: “Eh homem! Tu não viste o terceiro mensageiro de deva manifesto entre os seres humanos?”

E ele assim responde: “Não o vi, senhor.”

Então, bikxus, o rei Yama destarte lhe diz: “Oh homem! Não viste tu entre os seres humanos uma mulher ou um homem, morto há um dia ou morto há dois dias ou morto há três dias, intumescido, (de coloração) azul-preta e apodrecido?”

E ele assim responde: “Eu vi, senhor.”

Então, bikxus, o rei Yama destarte lhe diz: “Oh homem! A ti isto não ocorreu, inteligente e de idade bastante madura que és: ‘ Eu também estou deveras sujeito à morte, não ultrapassei a morte. Ora vamos! que eu faça o bem no corpo, na fala e na mente.’ ?”

Ele assim responde: “Não, senhor, eu não fui capaz. Fui negligente, senhor.”

Então, bikxus, o rei Yama destarte lhe diz: “Oh homem! Foi devido à negligência que tu não fizeste o bem em ação, palavra e pensamento. Eis que, ó homem, conforme tenha sido tua negligência, assim mesmo eles te farão. Ora, esta tua má ação não foi cometida pela mãe, não foi cometida pelo pai, não foi cometida pelo irmão, nem foi cometida pela irmã, tampouco foi ela cometida pelos amigos e colegas; não foi cometida por parentes ou compatriotas, nem foi cometida por devas, tampouco foi cometida por ascetas ou brâmanes. Mas sim por ti só foi perpetrada esta má ação, e justamente tu hás de experimentar-lhe os frutos.”

4. Então, bikxus, o rei Yama tendo-o examinado, perquirido e com ele entabulado conversa, queda-se em silêncio. Então, bikxus, os guardiões do Purgatório infligem-lhe as punições [aqui são descritos seis tipos diferentes de castigos aos quais ele é submetido; após cada um deles repete-se o seguinte: Lá ele experimenta sensações dolorosas, pungentes, violentas e amargas, mas ele não finda seu tempo enquanto esta má ação não é exaurida].4
Então, bikxus, os guardiões do Purgatório atiram-no ao Grande Purgatório.

5. Aconteceu outrora, ó bikxus, e ao rei Yama ocorreu-lhe isto: “Parece-me, meu caro, que aqueles que no mundo cometem más ações, esses são afetos às múltiplas retribuições do carma como estas. Oh! Oxalá venha eu adquirir existência humana, e que um Tathägata5 surja no mundo, um Consumado, perfeitamente iluminado, e que eu então possa me sentar junto dele, e que o Afortunado6 venha a me ensinar o Darma7, e que eu venha a entender o Darma do Afortunado!”

Agora, bikxus, isto que eu assim relato, não o ouvi de qualquer outro asceta ou brâmane; todavia, bikxus, aquilo que só por mim próprio foi conhecido, por mim próprio foi visto, por mim próprio foi descoberto, justamente isto eu declaro.

6.

Prevenidos pelos mensageiros-de-deva, os que
são negligentes enquanto jovens
Eles chegados à ignóbil condição humana,
por longo tempo se afligem.
Mas aqueles que aqui sendo retos, pelos
mensageiros-de-deva
Prevenidos, não são em qualquer tempo
negligentes no nobre Darma,
No apego o medo vendo e a origem do nascimento e morte,
Desapegados, eles libertam-se com a
destruição do nascimento e morte.
Estes, felizes, tendo segurança obtido, e
neste mesmo mundo alcançado o Nirvana8 completo
Transcendendo todo ódio e medo, sobrepujaram
todo sofrimento.9



III — Paralelos Ocidentais

1. Aproximadamente um século após Buda, Platão retoma este tema como desfecho do seu diálogo Gorgias. Depois de uma acirrada e, por vezes, áspera discussão acerca de retórica, política e políticos, o mal e o bem, a virtude e outros, Sócrates sentencia dizendo que “Ir ao mundo de baixo tendo alguém sua alma cheia de injustiça é o último e o pior dos males.” Então propõe ele contar uma estória e, embora seus interlocutores estivessem talvez dispostos a encará-la apenas como uma fábula, ele acredita tratar-se de uma verdadeira estória porque, como afirma, tencionava só falar a verdade (compare isto com as palavras de Buda no fim do parágrafo 5 do Sutra).

A estória que conta e que diz tê-la recebido do poeta órfico Homero, é carregada de fortes matizes míticos. Zeus, Posêidon e Plutão teriam dividido o império herdado de seu pai. Existia outrora uma lei no tocante ao destino humano, que ainda persistia nos Céus — de que aquele que tinha vivido toda a sua vida em justiça e santidade iria, quando morto, às Ilhas Abençoadas, e lá viveria em perfeita felicidade e fora do alcance de qualquer mal; mas aqueles que tinham vivido em injustiça e impiedade iriam à casa da vingança e punição chamada Tartarus (esta sob o domínio de Plutão = Yama).

Inicialmente, o julgamento era feito no próprio dia em que o homem estava destinado a morrer; os juízes estavam vivos e os homens também, e a conseqüência era que os julgamentos não eram bem dados. Então Plutão e as autoridades das Ilhas vieram à presença de Zeus e informaram-no de que as almas estavam sendo encaminhadas aos lugares errados. Sócrates prossegue contando como e por que razões estavam ocorrendo injustiças nos julgamentos, como os poderosos e ricos escapavam da má sorte ajudados por falsas testemunhas e outros fatores, e como e por que os juízes falhavam nos seus vereditos. Zeus, que já estava ciente de tudo, manda mudar os regulamentos, passando os julgamentos para após as mortes e em condições mais objetivas; ao mesmo tempo, ordena a Prometeu retirar dos mortais o poder que até então tinham de ter conhecimento prévio da morte.

As punições, diz Sócrates, têm duplo efeito: os que são justamente castigados ou deveriam tornar-se melhores e disso tirar proveito, ou eles deveriam servir de exemplo aos seus semelhantes para que pudessem ver o que eles sofrem e temerem e se tornarem melhores. Os que melhoram são aqueles cujos pecados são curáveis; e eles são melhorados, assim como ocorre neste mundo tanto quanto no outro, pela dor e sofrimento; porque não há outro caminho no qual eles possam ser libertados da sua maldade. Os casos que Sócrates cita como os piores exemplos para Plutão punir são os dos tiranos, potentados, homens públicos, políticos, etc!

Convém transcrever suas últimas palavras: “Sigam-me então; e eu vos conduzirei aonde sereis felizes em vida e após a morte… E nunca se importem se alguém vos desprezar como sendo tolos, e vos insultar; deixem-no golpear-vos, e que sejais tomados de bom humor e ânimo... porque vós nunca tereis qualquer dano na prática da virtude, se fordes uma pessoa realmente boa e autêntica. Quando tivermos praticado juntos a virtude, nós nos dedicaremos à política, se isto parecer desejável, ou aconselharemos acerca de qualquer outra coisa que pareça boa para nós, porque então seremos em melhor grau capazes para julgar. Na nossa atual condição não deveríamos assumir ares, porque mesmo sobre os mais importantes assuntos nós estamos constantemente mudando nosso pensamento; a tal ponto estúpidos somos! Retomemos, portanto, o argumento como nosso guia, que nos revelou que o melhor caminho de vida é praticar a justiça e toda e qualquer virtude em vida e morte…” (Georgias, pp.522-527).

2.10 É curioso notar o fato de o tema específico de aviso prévio do destino ou “mensageiros” não fazer parte da famosa coleção de Jâtakas, nem da literatura árabe do tipo “Kalilah e Dimnah” que serviu como um veículo eficaz por meio do qual muitas estórias folclóricas da antiga Índia penetraram na Europa. Tampouco faz ele parte da literatura dos poetas fabulistas da Grécia e Roma. O aparecimento deste tema no Continente se deve, portanto, ou a uma influência oriental processada por canais desconhecidos, ou a um surgimento original e espontâneo como muitas vezes sói acontecer na História. Seja como for, os irmãos Grimm diziam ter sido este tema conhecido desde, pelo menos, o século XIII. Este aparece em impressão, pelo que nos é dado saber, inicialmente em alguns fabulários em latim, creditados a Ésopo, e publicados no século XV-XVI. Num destes, organizado por Abstemius (Veneza, 1519), há uma fábula, a de número 149, denominada “De sene Mortem differe volente” (O Velho que desejava postergar a Morte), na qual se conta como a morte apresenta-se a um homem senil e convida-o a acompanhá-lo. Este se desculpa dizendo que o outro mundo era uma jornada grande demais para que pudesse empreendê-la apenas com base num aviso prévio tão curto e súbito, e solicitou mais tempo para terminar seus afazeres. Quando ele se surpreende ao saber da Morte, de que já tinha recebido inúmeros avisos, esta menciona-lhe as inúmeras mortes processadas diariamente de todas as maneiras diante de seus olhos, em pessoas de todos os tipos, idades e graus; e pergunta se isto não é um memento (motivo) suficiente para fazê-lo pensar da sua própria? A fábula termina com a moral: “Falta de aviso prévio não é escusa para o caso da Morte; porquanto cada momento da nossa vida é, ou deveria ser, um tempo de preparação para ela”. (Veja o episódio do místico que encerra este artigo).

Estórias parecidas aparecem ainda em outros fabulários como a de número 484 organizado por Joach. Camerarius (1564); a 99 em “Mythologia Aesopica” de Neveletus (1610); a 23 em “Fabulae Aesopiae” de F.J.Desbillons (1768), e muitas outras publicadas em diversos países nas principais línguas européias. Um fabulista moral como La Fontaine não iria deixar escapar este assunto; a sua fábula “La Mort et le Mourant” (A Morte e o Mortal), Nº 1 do Livro 8 da coleção completa, é semelhante à fábula acima. Este tema foi ainda assunto de sermões, discursos e artigos proferidos e escritos por religiosos, educadores e escritores ao longo dos séculos.

O último exemplo que mencionaremos, da época mais moderna, é o conto de Nº 177 “Os Mensageiros da Morte”, da coleção completa de contos de autoria dos irmãos Grimm. Como que a contrabalançar o tema sério e, para alguns, lúgubre, o conto está recheado de momentos de humor e ironia. Narra a estória que uma vez, numa auto-estrada, a Morte desafiou um gigante. Na longa e violenta luta que se seguiu, a mão do gigante ficou por cima deixando a Morte estatelada à beira da estrada, alquebrada e fraca a ponto de não poder se levantar. Então, pensou ela amargamente com seus botões, o que aconteceria agora se ela permanecesse deitada assim a um canto; ninguém mais morreria agora no mundo, e neste as pessoas proliferariam de tal maneira que não haveria mais lugar nem para uma pessoa ficar de pé ao lado da outra. No entanto, pouco depois, um jovem alegre e saudável passa nas cercanias e lhe oferece socorro. Uma vez recuperada, a Morte se identifica e embora sua lei fosse inexorável e ela não fizesse nenhuma exceção, para mostrar sua gratidão promete ao jovem que não lhe cairá em cima inesperadamente, mas que lhe enviará seus mensageiros antes como aviso prévio. O jovem considera isto um ganho e lhe agradece. Então dedica-se ele a viver uma vida alegre, de prazeres e irresponsável. Mas juventude e saúde não são para durar eternamente; cedo vieram as doenças e as tristezas, que o atormentaram de dia e lhe retiraram a paz à noite. O consolo dele era que não morreria, já que os mensageiros da Morte ainda não tinham se manifestado. Assim que se sentiu melhor de saúde, deu-se mais uma vez àquela vida alegre e descomprometida. Então, um dia, alguém bateu de leve no seu ombro e, ao virar-se, achou-se cara a cara com a própria Morte. Esta disse-lhe para seguí-lo, que a hora de sua partida deste mundo havia chegado. O diálogo que se segue é parecido às outras estórias, com a Morte dando-lhe exemplos de mensageiros, a começar pelas suas próprias doenças e outros indícios, e terminando por perguntar se além de tudo, o seu irmão Sono não lhe teria lembrado isto a cada noite? Se de noite ele não dormia qual morto? O homem teve então que ceder ao seu destino e foi-se embora com a Morte.

Para remate deste artigo nada melhor do que recontar um episódio de um místico judeu que ilustra bem qual é a atitude de um verdadeiro religioso face a este fenômeno natural.

“O Rabi Bunam estava à morte, e sua mulher se desfazia em pranto. Disse-lhe então: Por que choras? A minha vida inteira foi apenas para que eu aprendesse a morrer!”

* * *


Notas

1. Traduzido do original páli, publicado pela Pali Text Society, Inglaterra.
Deva significa literalmente “o radiante”. Os devas aos quais o Yama pertence também, são entes que habitam esferas sobre-humanas. Embora muitos os assemelhem aos “deuses” latinos e assim o traduzam, deve-se ter em mente que os devas estão sujeitos às mesmas leis da Natureza que os homens: não têm ascendência sobre estes, não lhe são visíveis geralmente e sua existência é efêmera, embora esta se conte aos milhares de anos; estão, ademais, sujeitos ao renascimento. Muitos consideram que as aludidas esferas sobre-humanas são correspondências de estados psicológicos especiais. Sobre isto veja maiores detalhes no artigo: “A Roda da Vida”, uma publicação do C.E.B..
Para uma comparação com os paralelos ocidentais, veja “Os Mensageiros do Destino”,uma publicação do C.E.B..

2. Monge-mendicante budista.

3. Sobre o Purgatório (páli niraya), outra esfera de existência, veja o artigo aludido na nota 1 acima.

4. No budismo, a vida numa tal esfera de existência tão dolorosa, não implica uma eterna danação. Tal forma dolorosa de existência é a conseqüência legal dos maus atos e findará quando a força que a condiciona, é exaurida. Então, as boas causas do passado poderão ter uma oportunidade de operar e condicionar um renascimento mais feliz.

5. Literalmente “o assim-ido ou vindo”, um dos apelidos de Buda.

6. Outro apelido de Buda.

7. Darma tem muitas acepções. Aqui ele significa o Ensinamento, Doutrina, Lei. Tanto o Darma (páli Dhamma) quanto deva e nirvana são palavras que já constam dos dicionários brasileiros da língua portuguesa.

8. Libertação final, Iluminação.

9. Estes versos são, por alguns estudiosos, considerados como um acréscimo feito por parte dos compiladores.

10. As informações sobre a literatura européia que constam nesta secção, foram extraídas do artigo do Dr R.Morris: Devadûtâ — (Death’s Messengers), publicado no “Journal of Pali Text Society, 1885”.

* * *


Nissim Cohen
(upâsaka Dhammasâri)

4/11/1997

Originalmente publicado na revista Thot, Nº 33, 1984
Revisado em
28/05/1997


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