CENTRO DE ESTUDOS BÚDICOS

Jacareí, SP


CHUANG TZU (CHOU): O Poeta da Liberdade

Chuang Tzu (Chou) (369-286 a.C.), o maior expoente da filosofia Taoísta chinesa, sempre se constituiu num fascínio para todos aqueles que lhe fazem o contato por meio de seus escritos. Seu estilo brilhante e cativante; sua visão ampla e profunda das coisas, na qual os produtos da sua imaginação fértil mesclam-se indistinguivelmente às suas observações da vida diária; sua sutil ironia e senso de humor; a riqueza e frescura das suas imagens; sua seriedade e devoção à verdade —, estes são alguns dos ingredientes verdadeiramente inspiradores e mentalmente estimulantes. Nas palavras de Wing-Tsit Chan, ele parece transcender o universo mundano e, no entanto, está sempre presente na própria profundeza da vida diária. Tudo isto é um produto direto da sua concepção da Natureza. Para ele, Natureza é, a um mesmo tempo, espontaneidade e um estado de fluxo constante e transformação incessante, na qual não há distinção entre sujeito e objeto, entre realidade e irrealidade. A morte, por isso mesmo, é encarada não como o findar mas como parte do processo vital e uma das suas transformações: "Vida e morte são devidas ao fado e sua constante sucessão qual dia e noite é devida à Natureza, estando além da interferência do homem[…] Considerar a vida como boa é a maneira de encarar a morte como boa". Seu objetivo é a absoluta emancipação espiritual e paz, a serem alcançados por meio do conhecimento da capacidade e limitações da sua própria natureza, alimentando-a e adaptando-a ao processo universal de transformação[…] O homem puro torna-se um "companheiro" da Natureza e não tenta nela interferir impondo-lhe as maneiras do homem.1

Nas suas próprias palavras: "Sozinho ele se associa aos Céus e Terra e espírito, sem abandonar ou desprezar as coisas do mundo[…] Com relação ao essencial, ele é amplo e abarcante, profundo e irrestrito. Com relação ao fundamental, ele poderá ser considerado como tendo harmonizado todas as coisas e penetrado o mais alto nível[…]"2 Seu impacto sobre o Budismo chinês foi tremendo, especialmente no desenvolvimento da Escola Ch'an (Zen), assim como nas Artes (pintura) e Letras (chinesas), com desdobramentos benéficos nos séculos subseqüentes à sua época.

Os dois textos que apresentamos a seguir, são dos mais apreciados dentre os seus escritos e eloqüentes testemunhos de sua visão de vida.

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a) A Igualdade da Vida e da Morte.

Quando a mulher de Chuang Tzu morreu, Hui Tzu foi oferecer-lhe suas condolências e juntar-se aos ritos de luto. Ele encontrou Chuang Tzu sentado no chão, tamborilando numa panela invertida sobre seus joelhos e cantando.
— Afinal de contas, disse Hui Tzu, alguém viveu contigo, educou os filhos para ti, envelheceu junto contigo e agora morreu. Que tu não vertas lágrimas por ela é muito ruim, mas agora, tamborilar e cantarolar, isto já é demais!
— Tu me julgas mal, disse Chuang Tzu. Quando ela morreu, eu fui tomado de desespero, como outro qualquer homem que bem poderia estar. Mas cedo, ponderando sobre o que tinha ocorrido, eu disse a mim mesmo que na morte nenhum novo destino nos acomete. No princípio ela carecia de vida; e não só de vida, mas também de forma; não só de forma mas também de espírito. Ela estava mesclada à grande, indistinguível e informe massa. Então com o tempo veio a transformação e no bojo da massa desenvolveu-se o espírito, do espírito desenvolveu-se a forma, da forma desenvolveu-se a vida, e agora da vida por sua vez, desenvolveu-se a morte. Porque não só a Natureza mas o ser humano também tem as suas estações, sua seqüência de primavera e outono, verão e inverno. Se alguém está cansado e tenha ido deitar-se, nós não vamos no seu encalço com gritaria e berros. Aquela que eu perdi foi se deitar para dormir na Grande Câmara (universo). Irromper no meio do seu repouso com o som da lamentação demonstraria que eu não soubesse nada acerca do destino. Eis por que eu parei de lamuriar.

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b) A Igualdade do Real e do Irreal.

Como eu sei que amar a vida não é uma grande ilusão? Como eu sei que odiar a morte não é algo como pensar que alguém tenha perdido seu caminho, quando, na verdade, o tempo todo ele está na trilha que leva à casa? Li Chi era a filha do guarda-da-fronteira em Ai. Quando inicialmente ela foi capturada e levada a Chin, ela chorou até seu vestido ficar ensopado com lágrimas. Mas quando ela veio ao palácio do rei, sentou-se junto com ele sobre o luxuoso divã e compartilhou com ele das guloseimas da mesa imperial, ela arrependeu-se de tanto ter chorado. Como eu sei que os mortos não estejam arrependidos por terem desejado uma longa vida? Aqueles que sonham com banquete à noite poderão chorar quando amanhecer; e aqueles que sonham estarem chorando poderão ir à caça na manhã seguinte. Mas enquanto está um homem sonhando, ele não sabe que está sonhando; nem tampouco pode ele interpretar um sonho, até que o sonho esteja feito. É somente quando ele acorda, que ele sabe ter sido isto um sonho. Não até o Grande Despertar pode ele saber que tudo isso fora um Grande Sonho… Certa vez Chuang Chou sonhou que ele era uma borboleta. Ele não sabia que alguma vez fora qualquer outra coisa a não ser uma borboleta, e estava feliz em adejar de flor em flor. Subitamente ele acordou e verificou para sua surpresa que ele era Chuang Chou. Mas não estava certo se realmente ele era Chou e tinha apenas sonhado que ele era uma borboleta, ou era realmente uma borboleta que estava apenas sonhando que era Chou. Entre Chou e a borboleta deverá haver alguma distinção. Isto é chamado a transformação das coisas.

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NOTAS e BIBLIOGRAFIA

(1) Wing-Tsit Chan: A Source Book in Chinese Philosophy, pág.177.
(2) Lin Yutang: Wisdom of Lao Tse: Chuang Tzu, capítulo 33. É característico de Chuang Tzu se referir a si próprio na 3a pessoa (N. do Tr.)

Adaptado das versões de:

A.Waley: Three Ways of Thought in Ancient China.
Wing-Tsit Chan: A Source Book in Chinese Philosophy.
E.R.Hughes: Chinese Philosophy in Classical Times.

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Nissim Cohen
(upâsaka Dhammasâri)

24/01/1999

(Publicado originalmente em: THOT, Nº 31, 1983,
publicação da Associação Palas Athena)

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